segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Coração pela Arte

 

Diniz acorda hoje como sempre - pesado e cansado de mais uma noite mal dormida e cheia de sonhos estranhos e maus, recalques, arrependimentos e desejos frustrados.

Olheiras deitam sobre as bochechas.

De desespero e males de amor mal esquecidos, vive mal este coração; mas um mal de rosto jovem e alma velha.

Não que tudo seja breu nesta realidade que Diniz abraça no vulgo, que seria até caso de estudo para o mais temperado dos psiquiatras, fosse o caso deste nosso amigo alguma vez ter sido ou permitido ser observado e tratado. Há contrapartidas vantajosas.

É portanto de grande utilidade esta realidade que, a par desta aliteração, que compreensivelmente vos causará admirabilidade, podendo até, posteriormente, consoante vossa disponibilidade, propor-se a prazerosa adjectividade sobre a insanidade e irresponsabilidade que relatarei eu já nas próximas linhas, previsivelmente recheadas de uma jogralidade a que agora eu me proponho, procurando desafiar a vossa irritabilidade. 

Acontece que dos primeiros estilhaços de seu coração tiveram origem as primeiras letras e notas, versos e melodias, harmonias e epifanias artísticas de Diniz, o Infante Trovador Ostracizado da Capital.

Fosse ou não por este acaso, ou por todas as outras mágoas similares que se lhe seguiram, sempre que sístoles e diástoles se lhe recusaram à labuta, recusando irrigar toda e cada uma das extremidades suas, (o que, caso o sentido destas palavras fosse literal e não figurativo, certamente explicaria de forma muito mais eficaz e coerente os acontecimentos que vos procuro agora transmitir após este breve intervalo, de parêntesis dentro de um comentário lateral); sempre sentira Diniz um pico de humores, torpores, euforias e rancores que, como a noite, lhe tornara aguçados, vis e felinos os sentidos, também frios cruéis, ideias variadas inspirações, enfim, criatividades para ser um pouco mais ou menos sucinto, que isto já se sabe nos dias de hoje - as iliteracias e analfabetismos funcionais exigem todo um reforço de ideias idealizadas que vêm da cabeça, sendo necessário recorrer a vários pleonasmos, inúteis e repetitivos (lá está), assim como frases auto-explicativas de coisas que em tempos idosos de há meia dúzia de anos, não mais seriam que indício de promoção activa de nescianismo ou pura inépcia de uma das partes do discurso, mas não mais hoje, não se vá o sentido perder entre fuscas de moralistas, chinadas de beatificação do verbo e catataus de passivo-agressividade digital; destarte, acabei de ganhar uma aposta aos que declaram o meu pouco préstimo, ousando afirmar que não conseguiria prosar em verso, incluindo neologismos e uma Saramagaiada pelo meio de um conto funesto.

Voltando ao nosso triste Diniz, a conclusão a que este chegou em tempos pela mão de suas sombras pejadas pelos pontinhos de luz que são sua obra: teria de se resignar e abraçar a dor como irmã e amiga, por amor à Arte, à sua arte. É a dor sua desbloqueadora e fonte, permitindo-lhe ser honesto e intenso, a sua verdade intelectual e emocional, agora expiados para telas e letras, imagens e melodias. Acredita não ter hoje ter direito a ser feliz, se sua arte procura afinar, pois que fraca autoridade moral teria, não podendo assim produzir as suas obras com verdade de “v grande”; ora espera assim, quase sempre secretamente, que todos os seus novos grandes amores de sua vida se tornem rapidamente libertinas devassas e insensíveis. O coração partido é assim o combustível que o alimenta (desta vez, figurativa e literalmente).

A liberdade poética era o cárcere da sua felicidade.

É a razão pela qual hoje, aprendeu a amar as suas dores, desfruta cada segundo enquanto trapo emocional, antevendo horas de prazer, transformando aquelas lágrimas, certamente rubras, a vomição da alma, cuspindo as entranhas a cada novo vocábulo, movimento ou nota. A sua verdade é agora só uma:

“-Ser artista é ser um profissional do sofrimento”.

É assim o sofrimento o seu dever ético e moral, como uma espécie de doença profissional, mesmo como um estágio profissional interminável, como aqueles a que se destinam eternamente as jovens promessas à experiência. É o pacto que tem com o grande público – o seu Eu poético deveria sempre, na dúvida, ser favorecido em detrimento do seu Eu pessoal e intransmissível, invertendo a sua relação de subserviência, ou pelo menos é este o entendimento de um primo distante que é agora coach, um parecer de autoridade elevada nos dias que correm.   

O nosso Trovador se convence agora diariamente que tem controlo sobre todo este processo, ao contrário das suas primeiras crises adolescentes que, reconhece agora, foram desprovidas de controlo, tornando-o num ser errante e vagamente presente na realidade dos restantes mortais. É hoje ele quem conduz e manipula os seus estados de alma, chega a se convencer muitas vezes inclusive, que manipula e sabota propositadamente suas relações, sempre que sente sua fonte secar uma vez mais. Não admite por isso hoje as letargias irascíveis que o assombraram em idos anos, entre seus altos e baixos, e conduziam à inércia mais impotente. Mas deleita-se hoje com aqueles estados depressivos e dissociativos que lhe roubam parcialmente a capacidade de uma comunicação verbal mas não escrita, se apraz com eles agora, se abarcando a uma produção febril e obsessiva – horas, dias – semanas! - Em que sono e refeições viriam somente em superlativo biológico.

É no entanto paradoxal que se recuse ainda hoje a admitir que gosta de não ser feliz – pois se gosta de se sentir miserável, um ser destroçado e infeliz seria algo que o compraz, realizando-o. Nada podia ser pior.

Não pode consentir Ser-se em tão bons sentimentos. seria compreensivelmente, contraproducente.

Já me canso de tantos advérbios de modo. Adiante.

Apela por isso a toda a inércia latente do seu frágil corpo, esta igual à qualquer outro, todos os dias, de forma irremediável e inevitável, à infelicidade – quase como um caminho fastidioso e diário para um escritório enfadonho, retido por um trânsito mais aperreador ainda - é esta a sua demanda, para gáudio de uns, horror de outros, todos que se lhe abeiram. Não o demove isto, evidentemente, da sua obsessão pela miséria emocional, muito pelo contrário! – Jubila prazenteiro com a incompreensão alheia, chafurdando em autocomiseração adoçada pela cadência dos fonemas que o assaltam, ousando assim crer que faz justiça aos grandes poetas e artistas de antanho:

“ – Se me fazem feliz dar-me-ão um grande desgosto. “

Podemos nós pensar: esta luta, infindável até ver, todos os dias o assalta e pode evidenciar um combate com traços dramáticos - os seus dois “eu’s” (talvez os três?) num combate tão eterno e épico como o de Hórus e Seth, mito muito engraçado que no Egipto Antigo explicava a alternância entre dia e noite; deviam ser bons tipos pois gostavam de gatos; mas não pode tudo isto ser mais desinteressante e enfadonho a qualquer observador: pontualmente apenas Diniz perdia o controlo e exteriorizava suas emoções; em todo o restante tempo quando não estava a criando, se comportava como uma concha vazia e olhos ausentes.

Todos os dias enquanto este pastelão de alma temperamental acorda, bebe os seus chás primeiro, alonga o corpo e toma por fim o seu pequeno-almoço, ruminando-o, e pensa em si, no seu estado e sua arte - é evidente que se encontra num ciclo complicado de quebrar -Tão miserável como cómodo. Mudança exige outro tipo de coragem: uma ousadia que, suspeita, não traz consigo em todo aquele excesso de sentimentos, formação e carácter.

Respirava agora fundo.

Pela cortina passam recortes de luz amarelada e quente que acariciam aquele rosto com barba de três dias.

Um sorriso triste e melancólico incomoda o rosto ainda hirto do sono, parecia feito de gesso.

Pensa em tudo isto e em nada.

Sentado naquela sala desarrumada, os olhos vítreos revelam que uma viagem muito grande acontecia ali atrás.

Agitando a cabeça como que a afastar uma mosca incómoda: -Intimamente Diniz sabe, não desapareceu ainda o seu sonho infantil - uma felicidade plena e livre, amor completo e eterno; desconfia que este é provavelmente o último traço reminiscente de uma inocência e ingenuidade que julga agora perdida há muito.

Só alguém muito especial, a existir, será capaz de o resgatar daquela vida, quebrando o ciclo, convertendo-o aqueles processos internos. Duvida hoje que essa pessoa exista. Tampouco acha que seja justo para alguém que não ele ter aquela ingrata tarefa.

Está hoje já certo de que até ao fim dos seus dias será um D. Quixote lusófono; que cantará para moinhos a quem amará como amara o de Cervantes à sua doce Dulcineia, no entanto mesmo os moinhos inevitavelmente lhe quebrarão o coração, trocarão também sempre por homens mais abastados e dados a prazeres mais efémeros e profanos.

De certa forma não se importava demasiado em procurar e experimentar bastante por uma Dulcineia sua, pudesse esta estar quem sabe, disfarçada de moinho; espectativa era sempre a mesma: a próxima será a tal, ainda que o preço da demanda lhe custe uma alma em fiapos e vários exames médicos, pelo sim pelo não, que as carnes sendo fracas, são ainda fortes o suficiente para adormecer, fugazmente é certo, as dores da saudade de outras almas desconhecidas; não se negam por isso boas carnes alheias, não só porque ofensa cruel esta seria, também danos e recalques afrontaria a almas sensíveis carentes; aplacando assim o remorso vê-se Diniz como um serviçal do bem-estar social feminino, uma Misericórdia lírica, não procurando no entanto nenhum de nós os dois ofender ou conflituar com a respeitosa e mui importante instituição da Igreja, até porque justo não seria para nenhuma das partes.

O Sol poisava agora por quase todo o seu corpo enchendo-o de conforto e um sentimento sonolento de paz podre, onde apenas os pés frios ainda na sombra o prendiam à Terra distante de seus pensamentos.

O consumo da carne é também para Diniz limpeza do espírito e das vontades: se por um lado o desejo é preciso qual inspiração divina à criação, não é menos verdade que desejo longamente inibido tolda o discernimento – ao suprir a carência das actividades anatómicas recreativas de auto e interdescoberta, o espírito e a mente mais facilmente conseguem compreender o que realmente lhes interessa e agir mais sábia e incisivamente, pois é sabido que é complicado ao homem cruzar as pernas sem que se lhe aperte também o cérebro. 

Sim, tudo isto que vos conto é resultado de sinapses recorrentes e diárias do nosso herói trovador e jogral ao despertar, por consequência ainda os lábios não tocaram o primeiro café da manhã, já se encontra deprimido e cansado. Mas ele agora sabe. Diniz deseja real e intimamente a felicidade, liberdade e amor correspondidos.

Mas perderia, crê ele, o valor e dom da sua arte.

Na sua mente isto passou-se. Seguiu-se vazio. Cãibra mental.

O sol cobriu-se por uma pequena nuvem passageira, deixando um frio abrupto na pele que até ali iluminava.

-“Nuvens no me caminho? Apanho-as todas, um dia faço algodão doce para o Meu Coração…” – disse baixinho, sorrindo amargamente, sentindo-se estúpido, imbecil.

Limpando da barba o resto das migalhas do pequeno-almoço, deixa-se cair no sofá, em menos de um minuto está a dormir, enquanto uma lágrima do olho esquerdo escorria para o forro de pano deixando uma pequena marca que ninguém nunca veria. Sabemo-lo nós pela minha condição omnisciente e meta-linguaruda e é apenas um pormenor sórdido que achei por gosto indicar, sem quaisquer consequências.

Haviam decorrido anos intermináveis, sentia agora Diniz, entre a adolescência e a agora sua provecta e cansada idade de vinte e cinco anos, que lhe concediam já a licença para afirmar categoricamente e com propriedade vários assuntos, a maioria dos quais de coração, mas não de cardiologia. Ignora porém, muito mais do que gosta de admitir.

Sem saber que a sua odisseia ainda nem a meio vai, sonha agora com uma mulher sem rosto e um sorriso do mais belo que já viu, doce, alegre e calorosa, carinhosa e companheira, um corpo fantástico e guloso sem forma, correndo ao seu lado por dias solarengos em campos, florestas e praias.

Quando acordar vai odiar-se por isso. É um sonho quase palpável; o desespero tomará conta daquela mente sensível quando os pormenores se escorrerem da memória como a água entre os dedos.

Babava agora a camisa do pijama.

Escrito assim, fica bonito. 

 

Clopin da Maia

31/08/2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Darwin e os Pássaros

 


Há coisa mais cliché que os passarinhos a chilrear pela manhã aos primeiros raios de Sol... 

Darwin had a point, But not so much

Pirosos.


Homero de Vaz Pessoa

26/09/2018


sábado, 29 de agosto de 2020

Lobotomias

 Lobotomia a cada dia, não sabe o bem que lhe fazia:

Se a uns confere alegria,

A outros sabedoria,

Ou mesmo sagrado silêncio,

Língua vazia, sem fel, magia,

Dispensa a torcida na confraria,

E a soberba que enoja e arrepia!


Assim, babando com bonomia,

Magnânima vontade de bons dias,

Se ama parca existência,

Fogos-de-Artifício e bonitas artes,

Passeios, belas paisagens, o Sol - o Mundo!


Ignora no entanto

Humores, egos e demais génios,

Benefícios e tricas reles,

Ridículas existências,

Idiotas e imbecis,

Ignaros e Fanfarrões,

Só importam pratos e colchões,

As fraldas e as comichões!


Ahh.. assim deve ser..

Felicidade!

Isso é que era.


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

13/01/2018

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

As Meninas que Passeiam na Praia

 

Uma esplanada de café

Radiante, Vila Costa

Sol escaldante de Verão

Espero pela escassa brisa

Entre o café e Beirão

 

Ofuscantes corpos suados

Morenos e sedutores são,

Passeiam livres, nus sem pudor,

Penso logo, tentação!

 

Destes há para todos os gostos

Queimados por Deus Sol, nosso Senhor!

Desfilam numa provocante marcha

Impossível disfarçar o torpor!

 

Corpos belos e cheirosos,

Quiçá a água do mar

Invocam primitivo instinto

Difícil de controlar

 

Iluminado o caminho

Belo mar atribulado

Em fio dental e biquíni

Como não olhar entusiasmado?

 

 Camilo Alberto Reis

30/06/2008

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Entre Braçadas- Parte I

Aquela massa de água, azul dos azulejos e com um travo forte a cloro e lixívia, embora familiares, não eram suficientes nesse dia para acalmar completamente aquele espírito inquieto e perturbado. Entre braçadas mais ou menos vigorosas, o corpo que ali deslizava e alongava, era desconexo de um pensamento que, liberto da sua carne, caminhava longe.

Não teria tempo de cumprir em todo o seu tempo de vida, a missão que se propunha fazer e que conhecia desde novo, sabia que a ela estava destinado. Homero sabia que, afinal de contas, mudar sozinho um mundo à sua imagem, este que já mudava tão rápido a um ritmo diário, seria desafio megalómano e de grande monta até para os maiores cérebros que a humanidade já conheceu. Destes, se poucos haviam sido minimamente eficazes na História, que dificuldades encontraria ele então? Não, para aquela missão, precisaria mais do que a simples força do intelecto. Mas era indubitável que esta seria a missão de uma vida, a sua grande participação e contributo para a humanidade, uma prenda que, magnanimamente fazia questão de deixar como herança para todos os Homens.

 O tempo passava impiedoso, marcando-se no rosto um pouco todos os dias, já sulcado com as primeiras rugas de expressão. Os vindouros seriam implacáveis a julgar a sua inércia, ainda que, a sua existência seja incomensuravelmente melhor após a sua missão estar concluída – mas sempre soube que assim seria: os Homens nunca apreciam verdadeiramente o que têm e são, apenas enxergam o que lhes falta e o que que poderiam ter sido. Os historiadores dos séculos futuros, quando a distância lhes permitisse ser mais frios, distantes e lúcidos no julgamento – era com estes que contava para que justiça fosse feita à sua memória.

Agitava agora as pernas calçadas de grandes e pesadas barbatanas de borracha, deixando um rasto de água revolta. 

Não contava por isso nos próximos anos, dificilmente durante o seu tempo de vida, que perante o descalabro progressista a que assistia na cultura e valores, as palavras que andava a preparar com brio havia tantos anos, fossem bem recebidas e compreendidas. Seria pateado certamente. Restava-lhe ser forte e aspirar a ser tomado pela mesma coragem que em tempos agraciou Giordano Bruno.

Como quem tenta expulsar aqueles pensamentos incómodos corrosivos, esperneou com mais força e vigor.

Fragmentos de memórias e pensamentos aleatórios passeavam ténues e efémeras, dançando entre as gotas de água e vapor que embaciavam os óculos. O fundo deslizava, sereno.

Reflectia…

Quando mais tarde se sentou na areia à beira-mar, respirava com gosto aquela maresia salgada, entregando-se aos sabores da brisa estival, que lhe beijava agora o rosto ainda amargurado. Na mochila trazia consigo livros de poesia e um caderno de folhas brancas. Entregava-se agora de novo às sombras que lhe roubavam a luz dos olhos.

Sabia que era inútil continuar muito mais tempo a adiar a acção. O pensamento agora conduzia-o apenas e só, cada vez mais à inércia mais absoluta. Era preciso pôr em marcha o plano. Actos grandiosos estariam para breve.

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.



Clopin da Maia

04/08/2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Bolas de Sabão











Bolas de sabão são bonitas.

As pessoas são bolas de sabão,
Assim como palavras, actos,
Intenções, sentimentos, emoções, ideais…
Tudo são bolas de sabão.

Formas bonitas...
Graciosas, pairando...

Admiráveis, perfeitas...
Ou não!

Mas lindas certamente...

Rebentam.

Não são nada.
Nada significam,
Nada fazem,
Nada criam,
Nada querem...

Sem préstimo.
Sem futuro.
Algo que já foi,
Nada tendo sido.
Algo que se lembra,
Sem nada significar.
Algo que se disse,
Sem nada ter feito.

Bolas de sabão lindas.
Hipnóticas promessas de nada,
Pairando vão, essas efemeridades inúteis,
Condenadas ao esquecimento...

Destinadas a dar um dia lugar às seguintes,
Na vã esperança que,
Não rebentem essas novas um dia.

Enquanto fascinados,
Nos embevecemos por suas cores,
Efeitos disformes,
Aguardando sempre pela próxima,
Que será sempre, eventualmente,
A mais linda,
A mais perfeita..
A tal.

Hoje, mais que rebentar,
Uma bola de sabão se fez desfazer.

Na sua ignomínia inocentemente estúpida,
Orgulhosamente arrogante,

Presunção de imortalidade,
Se sacrificou e aos que a admiravam.

Nada fica.

Ainda assim, hoje,
Bolas de sabão olharão,
Inúteis, impotentes, extasiadas,
O fogo que rasgará os céus, apenas por hoje,
Numa esperança tonta de que mais sejam,
(ou mais procurem ser!),
Que simples e modestas
Bolas de sabão.

O sabem mas ignoram,
Num culto activo:

Alienação e ignorância,
Que nem fogos ou céus,

Por si contemplados,
Deambulados, aspirados,
No fim, nada significam.

Assim como nada:
Nada significa nada.


Assim como bolas de sabão.


D.O.C.

31/12/2015

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Reflexão Aleatória #corjas

 É assistir à escumalha a abandonar o navio.

Corja inútil.

O livre pensamento da alma, reflecte-se no mecanizar das acções quotidianas-profanas.

Duvidando da vontade, não há córtex que resista ao desejo primitivo e sagaz das vontades populares de se abeirar da segurança, do instinto mais inato. 

Sem dor, sem alma, sem corpo.

Ou não. 


Camarinhas! Tenho dito.


Pensem nisto.

Namastê.


Homero de Vaz Pessoa

29/10/2018

domingo, 23 de agosto de 2020

Bacalhau

 O bacalhau não é carne nem é peixe. 

É um bicho insonso. 


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse 

23/07/2020

sábado, 22 de agosto de 2020

Atlante









Onde se encontra a nona quadrada raiz,
fundo safira, molhada, distante,
se esconde, afasta e perde
essa linda gémea, minha,
Ainda nem eu sabia que a tinha,
Passado levou num repente,
Tormentos, memórias constantes,
Onde tombam cavaleiros e Reis.

Gémea alma, pele,
Gémea no coração.
E no Sol,
No Vento e sorriso,
Gémea na canção,
Gémeas explosões,
Angústias, confusões.
Gémeas eternas preocupações,
Dúvidas, preposições e proposições,
Gémeos rastos, roídos,
Condoídos, feridos.
Gémeos rostos sumidos,

Uma miragem portanto.
Daquelas que,
Ao sentir agarrar,
Se some no vácuo da existência,
Presente, ausente,
Senciente.
Presente, ausente.
Mas sempre presente.

Digno de histórias,
Fábulas, Contos,
de História,
Feitiço cruel,
Poderoso, fogoso,
que de um só  lampejo,
Não concretiza,
Faz Estória,
Mas passa a História.

Cruel gémeo mau,
Lado negro, magoar,
Parente Maquiavel:
Tormento de toda metade Luz,
Conquista primeiro,
Se revela Tal,
Para caídos despojos abandonar,
Corrói, mói, dói
Mais que fel,
Que Lâmina pela pele,
Castigo errante,
Cantante, andante,
Ausência poderosa
Que coração aperta e seduz.

Sim.

Essa Atlante.
Está sem estar,
Sem falar, tudo diz,
Na alma, sentido coração,
Me convida a todo o instante.
Precioso diamante, amante,
Munido da melhor canção,
Visitar, intenção, assaltar
Essa nona quadrada raiz.

 

D.O.C.

14/07/2018

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A Vida é Como a Morte

 A vida é como a morte. 

Com um pouco mais de movimento, mas com inércia tendencialmente crescente. 

Pensem nisto.

Namastê.


Homero de Vaz Pessoa

06/08/2018

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Notícia

Era hora de jantar quando Camilo recebeu a notícia.

Pregado ao chão, sem ousar mexer um músculo, não fosse algo denunciá-lo à mulher e filhos. O momento em que o mundo parou - um cenário idílico e perfeito, refeição em família que ameaçava agora não mais se repetir.

O telemóvel parecia agora ter o peso de um tijolo, apesar de se encontrar estranhamente colado à orelha esquerda –“ Definitivamente não devia ter atendido” – pensou em pânico, perfeitamente consciente que ainda que assim tivesse sido, em nada isso mudaria o facto de que a sua vida perfeita estava prestes a mudar para sempre. Entre o turbilhão de pensamentos e imagens que agora começavam a escavar um cérebro que sentia agora seco e oco, não obstante a corrosão ácida, provavelmente de um remorso que veio tarde demais, pela sua mais absoluta estupidez.

Na verdade a vida já mudara, treze caracteres e vinte minutos atrás, apesar de até esse momento ele ainda não saber -  não tinha o hábito de consultar o telemóvel à hora das refeições, muito menos desde que Leonor, sua mulher, lhe reivindicara mais tempo para a família, sempre que este não se encontrasse em digressão.

Mas o silêncio prolongado à mensagem resultou num absoluto pânico por parte de Patty, que insistiu até que Camilo atendesse, pois as suas vidas iam mudar.

Claro, agora compreendia toda aquela insistência, não invalidando isso a realidade de que não podia haver pior momento para ser confrontado com aquela notícia, pois não só não sabia ainda como reagir, quanto mais como partilhar aquela informação fatídica.

Mais para ganhar tempo do que por outra coisa, resolveu perguntar, sem pensar “-Tens a certeza?” – sentindo-se de imediato ainda mais envergonhado e embaraçado, temendo a explosão que sabia que se ia seguir – já devia ter há muito tempo compreendido que não pode confiar nas primeiras palavras que lhe vêm à cabeça. O certo é que o pouco tempo que ganhou com esta pergunta não só foi inútil, pois continuava congelado, corpo e mente, como se imediatamente se confirmou o seu receio - Patty não achou piada nenhuma, o que a fez utilizar um conjunto de impropérios e vocábulos que Camilo sabia perfeitamente que em condições normais esta teria pudor de utilizar. Dando o tudo por tudo e implorando por um milagre, resolveu arriscar perguntar num esforço olímpico para parecer descontraído e casual:

- Podemos falar amanhã? Este não é o melhor momento.

- Desliga e em dez minutos estou à vossa porta! – era isso que ele temia. Engoliu em seco, pigarreou para soltar a voz:

- Então… Leo… por favor, não te chateias se eu for ao estúdio ter com a Patty? É urgente!

- Ela pode vir cá beber café a seguir ao jantar, calha bem que a sobremesa de hoje tenho a certeza de que gosta e tenho coisas para lhe contar! – Leonor a sorria enquanto se servia de vinho, claramente satisfeita por ter a oportunidade de poder partilhar coscuvilhices durante o serão...

Camilo engoliu em seco e hesitou, mas Patty que a ouviu resolveu ajudar – “ O backline que nos chegou hoje do patrocinador veio com defeito, preciso de ti para fazer o relatório técnico, que eu não percebo nada daquilo, temos de o encaminhar já amanhã, ou ainda corremos o risco de ser responsabilizados pelos danos. Daqui a meia hora no estúdio.” – Desligou.

- Pois Leo… ela está em furiosa, sabes? O novo equipamento que chegou do patrocinador veio defeituoso, tenho de a ajudar a fazer o relatório com os termos técnicos ainda esta noite, para devolver logo cedo, não vão eles lembrar-se de insinuar que fomos nós… – dissera tudo isto de uma penada sem respirar, acelerado e a transpirar.

O encolher de ombros de Leonor denunciou que não só não estava surpreendida como não achou graça à violação da promessa, ainda que por uma emergência. Camilo não se preocupou demasiado com isso, pois o que estava para vir tornava tudo isto irrelevante. Ainda assim passou o resto do jantar a tentar fazer um ar aborrecido e entediado pela noite de trabalho fora de horas que se avizinhava, sempre bastante maçador.

- Compreendo claro, - disse Leonor por fim - mas acho que a Patty tem exigido demasiado de ti, devias ser tu a exigir mais da tua agente e não o contrário!

Camilo hesitou, percebeu que se não afastasse a conversa daquele terreno pantanoso, corria o risco de se denunciar ainda antes do fim do jantar. A sentir o pânico a aumentar adiantou – “-Bem… sim…” Gaguejou e decidiu continuar -  “Mas de resto não tem corrido mal, ela tem sido incansável, além de digressões longas e bem pagas e rentáveis, ainda não gasto um cêntimo em equipamento ou instrumentos há quase quatro anos! São muito poucos os que têm este tipo de privilégios… “-

Leonor encolheu os ombros, numa atitude claramente derrotada e de quem decidiu não se chatear com aquilo, apesar de ele saber perfeitamente que na próxima oportunidade ela não deixaria de referir este episódio, mas depois percebeu que ela dificilmente precisaria de utilizar aquela situação como argumento para o que quer que fosse. Sim, a dúvida agora seria apenas quanto tempo demoraria ela a descobrir, ou se ele teria coragem para ser ele a comunicar-lhe aquelas novas, ou se descobriria ela primeiro.

O resto do jantar passou a uma velocidade alarmante, apesar de sofrível, mesmo porque sentia que tinha tentado comer bocados de cortiça.

Vinte minutos depois estava já dentro do carro. No que lhe pareceu um simples e fugaz momento, surpreendeu-se a estacionar já o carro junto ao estúdio. Quando começou realmente a cair em si, estava já a parar o carro junto do estúdio.

Parou o carro e respirou fundo. 


Clopin da Maia 

02/08/2020

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Sete Pés

A sete pés, três palmos, estão

Cinco polegares no chão,

duas camadas de alcatrão

Um rochedo cor dos sonhos

três borregos de assunção

seis dentes de leão

Duas pipas de vinho

Dez taças de cristal

nove bruxas, treze velas

vinte lesmas suculentas

sete gatos, muitas vidas

e um velho de roupão

defende a guarnição

Lê aos putos da favela

a letra desta canção

O Velho da Guarnição! 

 

”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

16/08/2020

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Entranhas

Ah... Entranhas... 
Entranhas minhas... 
Fogo ácido da minha carne. 
Esgoto se sente, no desgosto. 
Estruma-me a alma,
Esperança nas novas ilusões,
Por germinar. 
Tristes e enfadonhos relatos. 
Aborrecem-me, de tanto me aborrecer. 
Relatos estes me ensinaram:
Vida vã, sentir. 
Relatos das entranhas. 
Estranhos. Entranham-se.
Se contorcem elas sobre eles
(entranhas sobre os relatos, salvo seja!)
Se contorcem sobre repugnantes crostas, nojentas
Teimam estas em não cicatrizar,
Ora crosta, ora carne,
Alma aberta, esvaída na fome sedenta,
Susto e Medo. 
Ah... Entranhas...
Vísceras minhas.
Manifestadas já as existências, 
Desse asqueroso paquiderme na sala. 
Espasmos de alma, peito e carne.
Assim nos compra. Ele. 
Promessas eternas, ilusão,
Onirismo, Ilusionismo, Surrealismo, 
Tosco e Patético, Feliz Lirismo. 
Entranhas essas... Pesado pagam todos.
A todos. 
Preço visceral que se entranha nas Entranhas. 
Palpitações.
Revoltam-se as entranhas, revoltas.
Resulta sempre afinal, 
Naquilo que produzem sempre. 
As entranhas. 


Cano(n)s.


D.O.C. 
12/11/2018

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

As Pessoas

Eu, como me ensinaram a ser         
O que é certo, o que podia fazer
Quem sou eu, fazer por merecer

Mas eu não entendo o que se passa
É tudo tão, tão diferente... tão diferente
As pessoas… pessoas... 

As pessoas são bichos
As pessoas são feias
As pessoas são imundas
E conspurcam a Terra… 
E o meu mundo, 
que julgava perfeito

Mas são as pessoas que fazem a arte
Que pintam um quadro
Que constroem uma catedral
Que esculpem um Rodin

São as pessoas que criam as regras
Que escrevem leis
Definem a ética e a moral
Que exaltam os seus valores

São elas, que fazem a arte
Que escrevem um livro, 
Compõem uma música 
Que cantam a alma

E são as pessoas as primeiras a  
Desprezar tudo isto
Invejosas e com desdém 
São as primeiras a odiar 
Quem vá um pouco mais além

Não consigo viver
Não consigo existir 
Não me deixam sentir 
Não me deixam viver 

Eu não consigo ser 
O que me ensinaram ser 
Sempre que tento existir  
Há alguém me tenta fazer cair 


Pois bem, são as pessoas
As pessoas...
As primeiras que desprezam as suas regras
Para que servem elas senão para serem ignoradas?

São as pessoas... 
As pessoas... 

E quando um dia cansado da tua rotina infernal
No teu tecto, entre os teus... Entre as tuas… pessoas... 
Procuras o abrigo, o mais seguro do mundo 
Mas afinal... São pessoas... 
Surpreendido? 
Pessoas...  
Como foste tão cego? 
Porque São pessoas… 
Tão crédulo? 
As pessoas... 

Pois bem, são as pessoas

Não faças essa cara que é normal
Toda a gente o faz, não é? 
As Pessoas... 
Então qual é o mal? 
Vive e deixa viver, que esta vida são dois dias
E temos que ser felizes por cima de toda a folha
D’As pessoas… 
Mesmo que lá bem no fundo sejas um triste
E te tentes consolar no teu pequeno império material, 
Conseguido à custa do teu já pequeno sentimento de humanidade, sobre as pessoas... 
Da nossa sociedade, da tua sensibilidade, 
Da tua credibilidade… As pessoas 
Oh, remorsos? Se te pões com essas merdas nunca vais ser ninguém,
Este mundo é um circo, ou melhor, uma selva, e se não matas não vives, ou podes então te 
Contentar com os restos dos tranquilos
 Inocentes (as pessoas...) que são massacrados, como uma hiena miserável... As pessoas
De outra forma o teu destino é seres caçado e comido vivo, sem dó nem remorsos, pelas pessoas... 
E enquanto pensas nestas palavras, dá-se-te um nó no estômago...
O mesmo estômago que logo à noite vai estar a abarrotar 
de refrigerante e batatinhas fritas, enquanto te perdes no Mundo que querias para ti, e que apenas consegues pequena caixinha mágica e colorida,
Na esperança de te esqueceres da tua triste realidade, da nossa triste realidade, é que na verdade,
Que nesse dia podias ter mudado alguma coisa,
Mas que nesse dia traíste a tua espécie
A Tua Natureza
Aquilo que de mais puro e sublime existe em ti
E que isso te deixa, na verdade, a sentir o mais 
Miserável à face da Terra
Não importa, não sou o único, e amanhã será um novo dia 
Poderei fazer alguma coisa
Tentar redimir-me talvez? 
Sim, assim que se proporcionar, se não for amanhã será depois, não há pressa, o essencial é aprender a viver... 
Um equilíbrio... sensato... contido... inútil... oprimido... recalcado...

Mas não consigo viver
Não consigo existir 
Não me deixam sentir 
O que a vida pode oferecer 

Eu não consigo ser 
O que me ensinaram ser 
Sempre que tento existir  
Alguém me tenta abater 


São as pessoas…
As pessoas... 
E eles SÃO PESSOAS!

E então... Quem és tu? 

Cativo numa série de conceitos e ideias, imbecis
Sem significado
Mas não, não me consigo desviar, não sou assim, não me vejo a alinhar, não quero atacar, não quero mentir, não me quero mutilar, quero existir, 
E talvez seja isto que ainda me deixa sorrir, 
Que me deixa dormir

E então... Quem és tu? 
Quem sou eu? (Quem és tu?)
Sozinho... (Quem és tu?)
Quem sou eu? (Quem és)
Estranho… (Quem és)
Quem sou eu? (Quem és)
Um estranho (Quem és)
Quem sou eu? (Quem és)
Desalinhado... (Quem és)
Quem sou eu? (Quem és)
E não pertenço aqui... (Quem és)
Não sou gente
Não sou pessoa
Não quero ser gente
Ser apenas humano
Quero apenas ser livre
Quero viver, 
Ser um Homem
Não uma pessoa
Quero ser livre para viver, respirar, correr, sentir, ser livre para 


SER EU!!!!


Homero de Vaz Pessoa 
04/04/2009
 

domingo, 16 de agosto de 2020

Gentes Estranhas

A ignomínia da soberba é geralmente mais nociva que aquela que é originada na educação.

 

Ou na falta desta. Dividem, conquistam e governam assim os vendilhões, falsos profetas, fanfarrões, galifões. 

Esses filhos da puta, grandes cabrões. 



”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse 

09/10/2019
 


sábado, 15 de agosto de 2020

Turbilhão Solitário

 

Longe da razão do Ser        

Neste Mundo

Desconheço o que serei    

Só, Vou seguindo este trilho

Para onde vai não sei bem

 

Mal me lembro de mim menino

Tão inquieta esta fome     

Perdi-me no meu caminho

A Solidão dá tanta sede

Sei que te podes esconder  

Em mim, teu ser minha dor

Sinto de perto esta angústia

De um rio que não desaguou

 

Pela verdade errante

Grito sem nenhuma fé

Por uma saudade distante

Não distingue a mentira do que é

 

E no fundo do ser

Busco em mim a razão

Aquela que me tolda o medo

Vivendo em ilusão

 

E no fundo do ser

Grito sem nenhuma fé

Por uma saudade distante

Vivendo em ilusão, solidão


Diniz Oliveira Campos 

02/06/2012


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Balada do Aviso

São sombras, moinhos

Sombras de moinhos

As Sombras

 

Há sólidos fantasmas

Esses fantasmas

São sólidos... os fantasmas

 

Gritos perdidos não esquecem

Dores caladas, não morrem

Fantoches barulhentos, não caem


 


E aí, há na fonte uma lição

Há na rua, maldição

E nas vozes dos profetas,

Nos juízos dos poetas

Perigos, ilusão

Batem sábios os cajados,

Sôfregos, de inquietação

Amaldiçoam logros, intelectuais

Então… afirmam os providenciais

Nos discursos dos messias

Estaremos nós no fim dos dias

Que não saem nos jornais


E aí, 

Nas vozes dos profetas,

Há na rua, maldição

E nos juízos dos poetas

Na fonte, uma lição


Perigos...e ilusão.

 

13/05/2020

Diniz Oliveira Campos

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Amor e Carinho


 







Meu amor 

A falta que tu me fazes 

a alegria que me trazes

Vou fazer para ti cartazes 

contratei já capatazes


Para ti meu louvor


Oh paixão

Contigo perco o chão 

Espero por ti como um cão

Sonho com nossa união 

Não aceito mais um não 


Para ti meu coração


Minha amante 

Meu torrão de alicante 

Para ti canto até Trovante 

E vou à Festa do Avante 

Vou à missa de turbante


És minha nota dissonante! 


Ai amor

Ai Paixão

Ai Amor

Ai Paixão

Ai Amor, Ai Amor, Ai Paixão, Ai amor, Ai paixão! 


Meu passarinho

Sonho com o nosso ninho 

Bebendo o meu melhor vinho

E assustar com nosso barulhinho

O sono do nosso vizinho 


Para ti meu carinho 


Ai amor

Ai Paixão

Ai Amor

Ai Paixão

Ai Amor, Paixão, Ai amor, ai paixão! 


Camilo Alberto Reis

13/08/2020


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A Fúria

Não era a primeira vez que aquele pacato largo era perturbado pelo ruído de pancadas secas em metal frio e fibra de carbono, ainda que, nunca antes pelo responsável deste episódio.

As superfícies antes lisas dos automóveis da vizinhança encontravam-se agora irregulares, amolgadas e riscadas, longe da memória dos seus imaculados dias.

Foi assim que Diniz presenteou com os bons dias os moradores do Largo da Graça naquela fresca e cinzenta madrugada. A dor física que se infligia a par do prazer selvagem que lhe proporcionavam os danos causados à propriedade alheia, não eram no entanto o suficiente para aplacar toda a sua ira e frustração daquele momento.

Desgostos amorosos. De certa forma, os vizinhos mais próximos sabiam já a volatilidade de humores a que estavam sujeitos, embora até hoje não lhes tivesse causado qualquer dano. Já o mesmo não se pode dizer da maçada provocada pelos já frequentes ruídos, qual animal ferido de morte que, pontuavam os ruídos rotineiros daquele bairro, sempre que Diniz enfrentava mais um desgosto de um dos seus amores de perdição. Duas a quatro vezes por semana, consoante a estação.

Nestes momentos, sugerir que deveria haver qualquer coisa que se aparente com racionalidade ou razoabilidade, teria tanto efeito como agarrar o vento com as mãos. Fora sempre assim desde que se mudara para o bairro.

Olhos assassinos e cruéis trespassavam qualquer louco incauto que o abordasse e fosse menos que encantador, compreensivo, compassivo.

A rejeição e o desgosto, definitivamente não lhe caiam bem.

Quem não o conhecesse suficientemente bem, tomá-lo-iam certamente pelo seu gémeo mau, se de uma novela barata esta cena se tratasse –não era possível ser aquela a mesma pessoa que era um encanto para todos os velhinhos, crianças e animais! O lírico do bairro, trovador, bom vivã e boémio, cavalheiro educado e charmoso, sempre bem-disposto e sorridente, a alma de todas as festas, estrela de todos os convívios e eventos da freguesia.

Mas hoje não era essa pessoa. Hoje era a pessoa violenta e cega que fez disparar já cinco alarmes automóveis e partiu, à boa e velha força da pedrada, um dos vidros do quartel de Bombeiros. Como seria preciso o sol estar já bem alto para Diniz cair em si, assim como para se aperceber das implicações deste “virar da boneca”, não tinha ainda especial cuidado em se esconder ou sair rapidamente da zona do crime. Naquele momento nada mais lhe importava, não queria saber que era um artista independente e sem contractos, tampouco rendimentos fixos, que certamente teria prejuízos e problemas com a justiça e muito dificilmente capacidade de cobrir os prejuízos. Provavelmente nem se importaria de ser castigado e coagido, só mais uma lição para se forçar a aprender, por se ter permitido voltar a perder o controlo daquela maneira. Não era hábito perder por completo o sentido das coisas, ele que era tão cuidadoso com os maus sentimentos, que optava por se deixar afundar de tristezas e desgostos, ânsias letárgicas e depressivas, se permitia até chorar em público, aceitar a vergonha e a humilhação como penitência pela fraqueza de exibir orgulhosamente os seus sentimentos, como era natureza das almas fracas – sujeitava-se a tudo isto pois além de alimento à sua arte, era também a forma de descompressão que lhe permitia já, desde há tanto tempo, não perder o controlo sobre si para aqueles sentimentos nojentos e inferiores, como efectivamente se concretizou após anos de muitas ameaças.

Mas hoje o ódio e o ressentimento ferviam-lhe nas veias como veneno.

A dor da rejeição, o desespero do cansaço e da carência, eram sentidos como uma serra que, despedaçando os ossos em estilhaços aguçados, os mantivesse depois no lugar mas em brasas, que consomem as suas carnes lentamente, enquanto sente as entranhas a serem-lhe sugadas por um buraco negro que infringe todas as leis da física conhecida.

 

A verdade crua naquele momento, era dura e implacável aos seus olhos – nenhuma mulher ama realmente, serão todas iguais, criaturas frias e pútridas sem coração, que se alimentam sempre que podem do seu. Estava condenado a amar eternamente criaturas para quem a palavra amor seria, a seu ver, um palavrão indecifrável.   

Já mais abaixo no Miradouro, tornava-se difícil perceber se ainda teria a cara marcada pelo trilho das lágrimas, pois a aragem fresca da noite dera lugar à brisa quente da manhã dourada, que beijava já um Tejo coalhado. Não estava ainda certo de se querer importar com o que os turistas que começavam a aparecer pudessem pensar. Estava a pensar que tivera sorte de chegar ali sem que ninguém o abordasse nem, aparentemente, perceber que fora ele o causador do tumulto madrugador do bairro, quando um grupo de raparigas, aparentemente alemãs, começaram a tirar fotografias e a soltar gargalhadinhas histéricas ao seu lado.

Não deviam ter mais que vinte e cinco anos.

Não conseguindo deixar de reparar que todas elas eram, na verdade, bastante bonitas e bem-feitas, não pôde deixar também de se irritar com todo aquele entusiasmo e poses que claramente se destinavam a ser partilhadas nas redes sociais. Algo no tom de voz daquelas jovens mulheres teve o dom de o irritar profundamente.

Uma delas era, vista de trás, muito parecida com a grande responsável pelo seu desgosto amoroso dessa madrugada...

Cerrou os dentes qual animal raivoso. Inspirou bem fundo pelo nariz sete vezes e engoliu mais três golfadas de rajada, dez respirações, que na verdade deu para contar até trinta, tal era a ansiedade que o assaltava já e o medo do que estava prestes a fazer; sentiu uma forte vertigem e sensação de esmagamento enquanto o coração lhe tentava fugir pela boca, uma vez que as costelas em que este batia freneticamente, ainda que já doridas, permaneciam inteiras, certamente aquele músculo vítima de tantos desgostos estaria prestes a rasgar e a parar, seria questão de momentos, e nesse momento a voz traiu-o, fugindo-lhe como um rugido de guerra:

“- SÃO TODAS UMAS PUTAS!!!!” – Não tinha terminado ainda a frase, já manchas negras lhe tapavam o sol dos olhos, vomitou, deu dois passos débeis, teve apenas tempo de adiantar os joelhos para amparar a queda e Diniz Oliveira de Campos desmaiou.

 

Clopin da Maia

30/06/2020