segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Coração pela Arte

 

Diniz acorda hoje como sempre - pesado e cansado de mais uma noite mal dormida e cheia de sonhos estranhos e maus, recalques, arrependimentos e desejos frustrados.

Olheiras deitam sobre as bochechas.

De desespero e males de amor mal esquecidos, vive mal este coração; mas um mal de rosto jovem e alma velha.

Não que tudo seja breu nesta realidade que Diniz abraça no vulgo, que seria até caso de estudo para o mais temperado dos psiquiatras, fosse o caso deste nosso amigo alguma vez ter sido ou permitido ser observado e tratado. Há contrapartidas vantajosas.

É portanto de grande utilidade esta realidade que, a par desta aliteração, que compreensivelmente vos causará admirabilidade, podendo até, posteriormente, consoante vossa disponibilidade, propor-se a prazerosa adjectividade sobre a insanidade e irresponsabilidade que relatarei eu já nas próximas linhas, previsivelmente recheadas de uma jogralidade a que agora eu me proponho, procurando desafiar a vossa irritabilidade. 

Acontece que dos primeiros estilhaços de seu coração tiveram origem as primeiras letras e notas, versos e melodias, harmonias e epifanias artísticas de Diniz, o Infante Trovador Ostracizado da Capital.

Fosse ou não por este acaso, ou por todas as outras mágoas similares que se lhe seguiram, sempre que sístoles e diástoles se lhe recusaram à labuta, recusando irrigar toda e cada uma das extremidades suas, (o que, caso o sentido destas palavras fosse literal e não figurativo, certamente explicaria de forma muito mais eficaz e coerente os acontecimentos que vos procuro agora transmitir após este breve intervalo, de parêntesis dentro de um comentário lateral); sempre sentira Diniz um pico de humores, torpores, euforias e rancores que, como a noite, lhe tornara aguçados, vis e felinos os sentidos, também frios cruéis, ideias variadas inspirações, enfim, criatividades para ser um pouco mais ou menos sucinto, que isto já se sabe nos dias de hoje - as iliteracias e analfabetismos funcionais exigem todo um reforço de ideias idealizadas que vêm da cabeça, sendo necessário recorrer a vários pleonasmos, inúteis e repetitivos (lá está), assim como frases auto-explicativas de coisas que em tempos idosos de há meia dúzia de anos, não mais seriam que indício de promoção activa de nescianismo ou pura inépcia de uma das partes do discurso, mas não mais hoje, não se vá o sentido perder entre fuscas de moralistas, chinadas de beatificação do verbo e catataus de passivo-agressividade digital; destarte, acabei de ganhar uma aposta aos que declaram o meu pouco préstimo, ousando afirmar que não conseguiria prosar em verso, incluindo neologismos e uma Saramagaiada pelo meio de um conto funesto.

Voltando ao nosso triste Diniz, a conclusão a que este chegou em tempos pela mão de suas sombras pejadas pelos pontinhos de luz que são sua obra: teria de se resignar e abraçar a dor como irmã e amiga, por amor à Arte, à sua arte. É a dor sua desbloqueadora e fonte, permitindo-lhe ser honesto e intenso, a sua verdade intelectual e emocional, agora expiados para telas e letras, imagens e melodias. Acredita não ter hoje ter direito a ser feliz, se sua arte procura afinar, pois que fraca autoridade moral teria, não podendo assim produzir as suas obras com verdade de “v grande”; ora espera assim, quase sempre secretamente, que todos os seus novos grandes amores de sua vida se tornem rapidamente libertinas devassas e insensíveis. O coração partido é assim o combustível que o alimenta (desta vez, figurativa e literalmente).

A liberdade poética era o cárcere da sua felicidade.

É a razão pela qual hoje, aprendeu a amar as suas dores, desfruta cada segundo enquanto trapo emocional, antevendo horas de prazer, transformando aquelas lágrimas, certamente rubras, a vomição da alma, cuspindo as entranhas a cada novo vocábulo, movimento ou nota. A sua verdade é agora só uma:

“-Ser artista é ser um profissional do sofrimento”.

É assim o sofrimento o seu dever ético e moral, como uma espécie de doença profissional, mesmo como um estágio profissional interminável, como aqueles a que se destinam eternamente as jovens promessas à experiência. É o pacto que tem com o grande público – o seu Eu poético deveria sempre, na dúvida, ser favorecido em detrimento do seu Eu pessoal e intransmissível, invertendo a sua relação de subserviência, ou pelo menos é este o entendimento de um primo distante que é agora coach, um parecer de autoridade elevada nos dias que correm.   

O nosso Trovador se convence agora diariamente que tem controlo sobre todo este processo, ao contrário das suas primeiras crises adolescentes que, reconhece agora, foram desprovidas de controlo, tornando-o num ser errante e vagamente presente na realidade dos restantes mortais. É hoje ele quem conduz e manipula os seus estados de alma, chega a se convencer muitas vezes inclusive, que manipula e sabota propositadamente suas relações, sempre que sente sua fonte secar uma vez mais. Não admite por isso hoje as letargias irascíveis que o assombraram em idos anos, entre seus altos e baixos, e conduziam à inércia mais impotente. Mas deleita-se hoje com aqueles estados depressivos e dissociativos que lhe roubam parcialmente a capacidade de uma comunicação verbal mas não escrita, se apraz com eles agora, se abarcando a uma produção febril e obsessiva – horas, dias – semanas! - Em que sono e refeições viriam somente em superlativo biológico.

É no entanto paradoxal que se recuse ainda hoje a admitir que gosta de não ser feliz – pois se gosta de se sentir miserável, um ser destroçado e infeliz seria algo que o compraz, realizando-o. Nada podia ser pior.

Não pode consentir Ser-se em tão bons sentimentos. seria compreensivelmente, contraproducente.

Já me canso de tantos advérbios de modo. Adiante.

Apela por isso a toda a inércia latente do seu frágil corpo, esta igual à qualquer outro, todos os dias, de forma irremediável e inevitável, à infelicidade – quase como um caminho fastidioso e diário para um escritório enfadonho, retido por um trânsito mais aperreador ainda - é esta a sua demanda, para gáudio de uns, horror de outros, todos que se lhe abeiram. Não o demove isto, evidentemente, da sua obsessão pela miséria emocional, muito pelo contrário! – Jubila prazenteiro com a incompreensão alheia, chafurdando em autocomiseração adoçada pela cadência dos fonemas que o assaltam, ousando assim crer que faz justiça aos grandes poetas e artistas de antanho:

“ – Se me fazem feliz dar-me-ão um grande desgosto. “

Podemos nós pensar: esta luta, infindável até ver, todos os dias o assalta e pode evidenciar um combate com traços dramáticos - os seus dois “eu’s” (talvez os três?) num combate tão eterno e épico como o de Hórus e Seth, mito muito engraçado que no Egipto Antigo explicava a alternância entre dia e noite; deviam ser bons tipos pois gostavam de gatos; mas não pode tudo isto ser mais desinteressante e enfadonho a qualquer observador: pontualmente apenas Diniz perdia o controlo e exteriorizava suas emoções; em todo o restante tempo quando não estava a criando, se comportava como uma concha vazia e olhos ausentes.

Todos os dias enquanto este pastelão de alma temperamental acorda, bebe os seus chás primeiro, alonga o corpo e toma por fim o seu pequeno-almoço, ruminando-o, e pensa em si, no seu estado e sua arte - é evidente que se encontra num ciclo complicado de quebrar -Tão miserável como cómodo. Mudança exige outro tipo de coragem: uma ousadia que, suspeita, não traz consigo em todo aquele excesso de sentimentos, formação e carácter.

Respirava agora fundo.

Pela cortina passam recortes de luz amarelada e quente que acariciam aquele rosto com barba de três dias.

Um sorriso triste e melancólico incomoda o rosto ainda hirto do sono, parecia feito de gesso.

Pensa em tudo isto e em nada.

Sentado naquela sala desarrumada, os olhos vítreos revelam que uma viagem muito grande acontecia ali atrás.

Agitando a cabeça como que a afastar uma mosca incómoda: -Intimamente Diniz sabe, não desapareceu ainda o seu sonho infantil - uma felicidade plena e livre, amor completo e eterno; desconfia que este é provavelmente o último traço reminiscente de uma inocência e ingenuidade que julga agora perdida há muito.

Só alguém muito especial, a existir, será capaz de o resgatar daquela vida, quebrando o ciclo, convertendo-o aqueles processos internos. Duvida hoje que essa pessoa exista. Tampouco acha que seja justo para alguém que não ele ter aquela ingrata tarefa.

Está hoje já certo de que até ao fim dos seus dias será um D. Quixote lusófono; que cantará para moinhos a quem amará como amara o de Cervantes à sua doce Dulcineia, no entanto mesmo os moinhos inevitavelmente lhe quebrarão o coração, trocarão também sempre por homens mais abastados e dados a prazeres mais efémeros e profanos.

De certa forma não se importava demasiado em procurar e experimentar bastante por uma Dulcineia sua, pudesse esta estar quem sabe, disfarçada de moinho; espectativa era sempre a mesma: a próxima será a tal, ainda que o preço da demanda lhe custe uma alma em fiapos e vários exames médicos, pelo sim pelo não, que as carnes sendo fracas, são ainda fortes o suficiente para adormecer, fugazmente é certo, as dores da saudade de outras almas desconhecidas; não se negam por isso boas carnes alheias, não só porque ofensa cruel esta seria, também danos e recalques afrontaria a almas sensíveis carentes; aplacando assim o remorso vê-se Diniz como um serviçal do bem-estar social feminino, uma Misericórdia lírica, não procurando no entanto nenhum de nós os dois ofender ou conflituar com a respeitosa e mui importante instituição da Igreja, até porque justo não seria para nenhuma das partes.

O Sol poisava agora por quase todo o seu corpo enchendo-o de conforto e um sentimento sonolento de paz podre, onde apenas os pés frios ainda na sombra o prendiam à Terra distante de seus pensamentos.

O consumo da carne é também para Diniz limpeza do espírito e das vontades: se por um lado o desejo é preciso qual inspiração divina à criação, não é menos verdade que desejo longamente inibido tolda o discernimento – ao suprir a carência das actividades anatómicas recreativas de auto e interdescoberta, o espírito e a mente mais facilmente conseguem compreender o que realmente lhes interessa e agir mais sábia e incisivamente, pois é sabido que é complicado ao homem cruzar as pernas sem que se lhe aperte também o cérebro. 

Sim, tudo isto que vos conto é resultado de sinapses recorrentes e diárias do nosso herói trovador e jogral ao despertar, por consequência ainda os lábios não tocaram o primeiro café da manhã, já se encontra deprimido e cansado. Mas ele agora sabe. Diniz deseja real e intimamente a felicidade, liberdade e amor correspondidos.

Mas perderia, crê ele, o valor e dom da sua arte.

Na sua mente isto passou-se. Seguiu-se vazio. Cãibra mental.

O sol cobriu-se por uma pequena nuvem passageira, deixando um frio abrupto na pele que até ali iluminava.

-“Nuvens no me caminho? Apanho-as todas, um dia faço algodão doce para o Meu Coração…” – disse baixinho, sorrindo amargamente, sentindo-se estúpido, imbecil.

Limpando da barba o resto das migalhas do pequeno-almoço, deixa-se cair no sofá, em menos de um minuto está a dormir, enquanto uma lágrima do olho esquerdo escorria para o forro de pano deixando uma pequena marca que ninguém nunca veria. Sabemo-lo nós pela minha condição omnisciente e meta-linguaruda e é apenas um pormenor sórdido que achei por gosto indicar, sem quaisquer consequências.

Haviam decorrido anos intermináveis, sentia agora Diniz, entre a adolescência e a agora sua provecta e cansada idade de vinte e cinco anos, que lhe concediam já a licença para afirmar categoricamente e com propriedade vários assuntos, a maioria dos quais de coração, mas não de cardiologia. Ignora porém, muito mais do que gosta de admitir.

Sem saber que a sua odisseia ainda nem a meio vai, sonha agora com uma mulher sem rosto e um sorriso do mais belo que já viu, doce, alegre e calorosa, carinhosa e companheira, um corpo fantástico e guloso sem forma, correndo ao seu lado por dias solarengos em campos, florestas e praias.

Quando acordar vai odiar-se por isso. É um sonho quase palpável; o desespero tomará conta daquela mente sensível quando os pormenores se escorrerem da memória como a água entre os dedos.

Babava agora a camisa do pijama.

Escrito assim, fica bonito. 

 

Clopin da Maia

31/08/2020

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