Júan João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse”

 


“Júan” João Bernardo, "O Cavaleiro de Pau do Apocalipse”, é o nome artístico de João Gilberto Mourão, utiliza no entanto amiúde diversas outras designações e títulos com que se faz apresentar nas suas diversas aparições e intervenções: «Truão do Beco Perdido, Jogral de Vicissitudes, Visionário das Existências, Balatro do Castelo Encantado, Profeta das Inexistências, Bufão por Detrás do Véu, Menestrel de Usanças, Títere das Inverdades Possíveis, Dr. Saltimbanco Tamanco, Arlequim de Obscenidades, Porno-Poeta, Trovador de Costumes, Histrião do Sol-Posto, Messias do Baixo-Ventre», entre tantos outros ao serviço, consoante o tom da vez: mais lascivo e erótico, apocalíptico, político-social, lírico, etc.  

É hoje uma das mais proeminentes figuras do panorama cultural lusófono, por vezes provocando celeumas pela natureza das suas declarações, textos, críticas, intervenções de diversa natureza, por norma crítica e satírica.

Nascido a 14 de Junho de 1976 nos arredores de Ermidas-Sado, Concelho de Santiago do Cacém, guarda de lá poucas memórias.

Leandro, o pai, criava gado suíno e produzia cereais no pequeno terreno agrícola da família; a mãe, Laura, fazia artesanato, sendo este o primeiro contacto de João com as artes plásticas. Foi ainda na sua terra natal que terá visto pela primeira vez um Circo, o maior espectáculo do mundo, facto que o marcou e definiu toda a sua vida.

Aos quatro anos a família mudou-se para a cintura industrial de Lisboa, em busca de vida melhor. Fixaram-se em Almada e Leandro foi empregado na Lisnave; já a mãe continuou a produção de artesanato e começou a pintar, trabalhos que tentava vender aos fins-de-semana ia em Lisboa.

João logo aos seis anos, encorajado pela mãe, começa a pintar mas rapidamente compreende que não seria nas artes plásticas que encontraria seu coração.

Na escola destacou-se muito cedo em Português, Ginástica e Educação Musical; não sendo um aluno modelo, não tinha mau aproveitamento, mas já a sua pouca disciplina e comportamento subversivo eram dignos de nota, valendo-lhe desde cedo vários castigos, quer na escola quer em casa.

 Quando fez treze anos começou, inspirado por bandas como Ruídos Verbais e influenciado por amigos e colegas, a tocar guitarra, que nos primeiros anos foram emprestadas à vez pelos colegas. Também por esta altura torna-se um ávido leitor do “Notas em Bloco”, chegando a corresponder-se em certas ocasiões com a redacção. Posteriormente caracterizou estes seus verdes anos como a sua “fase esponja”, em que procurava manter-se a par de toda a actualidade cultural.

Gostava já de declamar poesia enquanto tocava uma base musical. Era um admirador entusiasta das declamações de José Carlos Ary dos Santos, que passou a conhecer ainda melhor após a noticiada morte do poeta em 86. Esta notícia não só teve um profundo impacto e influência da vida de João, como foi em parte responsável pela sua busca daqui em diante pela leitura, pela informação, alimentar activamente a sua educação, mas sobretudo uma tomada de consciência sobre a realidade política, económica e social do país. 

Vivendo o espírito dos tempos, identificava-se claramente com os movimentos de esquerda, emprestando toda a sua emoção a cantar Zeca Afonso, Fausto, José Mário Branco e Sérgio Godinho, entre tantos outros. Neste período que viajou pela música e poesia revolucionárias, começou a procurar novas leituras e foi neste contexto que foi conhecendo e se apaixonando por obras de Gil Vicente, Bocage e António Aleixo que adoptou como mestres espirituais.

Envolvia-se com frequência em discussões acesas sobre políticas e ideologias; apesar de, provavelmente fruto da irreverência da adolescência, se identificar como anarquista, não escondeu nunca o respeito e até carinho ao Partido Comunista Português, tendo vindo a tornar-se militante, em segredo dos pais, logo que fez os dezoito anos.

Este ano de 1994 foi efectivamente de grandes mudanças para João, ano da sua emancipação artística, política e sobretudo social e pessoal.

Praticamente sem mestre nem mediação, sendo a sua educação formal incompleta, nunca concluindo sequer o Liceu, procurou por si formar-se “fora das amarras do sistema”. Interessou-se bastante pelo tom humorístico de Camilo castelo Branco, olhava em volta indignado e incrédulo com a sociedade portuguesa, comparando-a com o que lia quando se confrontou com o realismo antigo e tão actual de Eça de Queirós; deleitou-se com a desmultiplicação de Fernando Pessoa, dando-lhe este a ideia de um dia criar também para si um personagem. As leituras iam-se tornando cada vez mais complexas e pesadas, e fosse ou não pela falta de preparação formal ou estrutura emocional, começaram estas a marcar profundamente as suas pretensões, como também foi inundado por uma profunda angústia e sentimento de inutilidade, descrédito, cinismo e até desprezo pelas políticas da governação, mas sobretudo, pela condição humana. Cada vez mais nos seus textos eram visíveis os seus esforços e exercícios para se olhar, como ao mundo, de fora.

Por esta altura juntava-se já com frequência em concertos e actuações com grupos identificados posteriormente como punks; participava pontualmente e sempre sem compromisso em várias formações musicais, e tinha já fortes pretensões a ser artista performativo, actuando em diversas ocasiões em apresentações improvisadas nas ruas de Lisboa. Continuava um apaixonado pelas artes circenses e performativas, tendo procurado e voluntariado diversas vezes para trabalhar em Circos, chegando ocasionalmente a conseguir apresentar-se aqui ao grande público.

Foi também aos dezoito anos que ao vinho de que já era grande apreciador às escondidas desde a infância, descobre outra grande paixão – o bagaço: e os estados de espíritos por ele induzidos foram em grande parte responsáveis, como o próprio reconhece, pela sua definitiva libertação das amarras das convenções sociais.      

Foi ao aproximar-se dos vinte anos que criou a sua máscara, a personagem “Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse, que passaria a ser de futuro e em todas as suas intervenções, a sua cara, sua voz, com que nunca mais deixou de assinar.  

Desde então começou a destacar-se no seio da comunidade artística e intelectual de Portugal, mais tarde pela restante comunidade lusófona, com os seus discursos desabridos e crus, gerando polémica com os seus versos e dizeres, dos mais prosaicos aos mais dúbios e ambíguos, não poupando do mendigo ao Presidente.

Tem uma predilecção particular de contestar e provocar Homero de Vaz Pessoa, que frequentemente apelida carinhosamente de “Facho com Síndrome de Estocolmo à Esquerda” ou “Doutíssimo Salvador dos Espíritos Burgessos”.

Júan adora satirizar e deturpar letras e canções alheias, com particular entusiasmo as de Camilo Alberto Reis, não obstante a amizade que os dois foram desenvolvendo desde que, o ainda adolescente João, assistira a um dos últimos concertos de Ruídos Verbais em 89, não mais deixando de acompanhar, por vezes mais à distância, a carreira de Camilo.

Trava amizade em 2012 com um jovem talentoso mas ainda em fase de descoberta e grande aprendizagem, Diniz Oliveira de Campos, que o virá a tomar como exemplo e referência. Mais tarde Diniz fará questão de ouvir a sua análise e opinião sobre os seus textos e composições originais.  

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