Aquela massa de água, azul dos azulejos e com um travo
forte a cloro e lixívia, embora familiares, não eram suficientes nesse dia para
acalmar completamente aquele espírito inquieto e perturbado. Entre braçadas
mais ou menos vigorosas, o corpo que ali deslizava e alongava, era desconexo de
um pensamento que, liberto da sua carne, caminhava longe.
Não teria tempo de cumprir em todo o seu tempo de vida, a
missão que se propunha fazer e que conhecia desde novo, sabia que a ela estava
destinado. Homero sabia que, afinal de contas, mudar sozinho um mundo à sua
imagem, este que já mudava tão rápido a um ritmo diário, seria desafio
megalómano e de grande monta até para os maiores cérebros que a humanidade já
conheceu. Destes, se poucos haviam sido minimamente eficazes na História, que
dificuldades encontraria ele então? Não, para aquela missão, precisaria mais do
que a simples força do intelecto. Mas era indubitável que esta seria a missão
de uma vida, a sua grande participação e contributo para a humanidade, uma
prenda que, magnanimamente fazia questão de deixar como herança para todos os
Homens.
O tempo passava
impiedoso, marcando-se no rosto um pouco todos os dias, já sulcado com as
primeiras rugas de expressão. Os vindouros seriam implacáveis a julgar a sua
inércia, ainda que, a sua existência seja incomensuravelmente melhor após a sua
missão estar concluída – mas sempre soube que assim seria: os Homens nunca
apreciam verdadeiramente o que têm e são, apenas enxergam o que lhes falta e o
que que poderiam ter sido. Os historiadores dos séculos futuros, quando a
distância lhes permitisse ser mais frios, distantes e lúcidos no julgamento –
era com estes que contava para que justiça fosse feita à sua memória.
Agitava agora as pernas calçadas de grandes e pesadas
barbatanas de borracha, deixando um rasto de água revolta.
Não contava por isso nos próximos anos, dificilmente
durante o seu tempo de vida, que perante o descalabro progressista a que
assistia na cultura e valores, as palavras que andava a preparar com brio havia
tantos anos, fossem bem recebidas e compreendidas. Seria pateado certamente.
Restava-lhe ser forte e aspirar a ser tomado pela mesma coragem que em tempos
agraciou Giordano Bruno.
Como quem tenta expulsar aqueles pensamentos incómodos
corrosivos, esperneou com mais força e vigor.
Fragmentos de memórias e pensamentos aleatórios passeavam
ténues e efémeras, dançando entre as gotas de água e vapor que embaciavam os
óculos. O fundo deslizava, sereno.
Reflectia…
Quando mais tarde se sentou na areia à beira-mar,
respirava com gosto aquela maresia salgada, entregando-se aos sabores da brisa
estival, que lhe beijava agora o rosto ainda amargurado. Na mochila trazia
consigo livros de poesia e um caderno de folhas brancas. Entregava-se agora de
novo às sombras que lhe roubavam a luz dos olhos.
Sabia que era inútil continuar muito mais tempo a adiar a
acção. O pensamento agora conduzia-o apenas e só, cada vez mais à inércia mais
absoluta. Era preciso pôr em marcha o plano. Actos grandiosos estariam para
breve.
Caminhava agora, com os pés na areia molhada,
pontualmente salpicados pelas ondas.
Clopin da Maia
04/08/2020
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