quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Entre Braçadas- Parte I

Aquela massa de água, azul dos azulejos e com um travo forte a cloro e lixívia, embora familiares, não eram suficientes nesse dia para acalmar completamente aquele espírito inquieto e perturbado. Entre braçadas mais ou menos vigorosas, o corpo que ali deslizava e alongava, era desconexo de um pensamento que, liberto da sua carne, caminhava longe.

Não teria tempo de cumprir em todo o seu tempo de vida, a missão que se propunha fazer e que conhecia desde novo, sabia que a ela estava destinado. Homero sabia que, afinal de contas, mudar sozinho um mundo à sua imagem, este que já mudava tão rápido a um ritmo diário, seria desafio megalómano e de grande monta até para os maiores cérebros que a humanidade já conheceu. Destes, se poucos haviam sido minimamente eficazes na História, que dificuldades encontraria ele então? Não, para aquela missão, precisaria mais do que a simples força do intelecto. Mas era indubitável que esta seria a missão de uma vida, a sua grande participação e contributo para a humanidade, uma prenda que, magnanimamente fazia questão de deixar como herança para todos os Homens.

 O tempo passava impiedoso, marcando-se no rosto um pouco todos os dias, já sulcado com as primeiras rugas de expressão. Os vindouros seriam implacáveis a julgar a sua inércia, ainda que, a sua existência seja incomensuravelmente melhor após a sua missão estar concluída – mas sempre soube que assim seria: os Homens nunca apreciam verdadeiramente o que têm e são, apenas enxergam o que lhes falta e o que que poderiam ter sido. Os historiadores dos séculos futuros, quando a distância lhes permitisse ser mais frios, distantes e lúcidos no julgamento – era com estes que contava para que justiça fosse feita à sua memória.

Agitava agora as pernas calçadas de grandes e pesadas barbatanas de borracha, deixando um rasto de água revolta. 

Não contava por isso nos próximos anos, dificilmente durante o seu tempo de vida, que perante o descalabro progressista a que assistia na cultura e valores, as palavras que andava a preparar com brio havia tantos anos, fossem bem recebidas e compreendidas. Seria pateado certamente. Restava-lhe ser forte e aspirar a ser tomado pela mesma coragem que em tempos agraciou Giordano Bruno.

Como quem tenta expulsar aqueles pensamentos incómodos corrosivos, esperneou com mais força e vigor.

Fragmentos de memórias e pensamentos aleatórios passeavam ténues e efémeras, dançando entre as gotas de água e vapor que embaciavam os óculos. O fundo deslizava, sereno.

Reflectia…

Quando mais tarde se sentou na areia à beira-mar, respirava com gosto aquela maresia salgada, entregando-se aos sabores da brisa estival, que lhe beijava agora o rosto ainda amargurado. Na mochila trazia consigo livros de poesia e um caderno de folhas brancas. Entregava-se agora de novo às sombras que lhe roubavam a luz dos olhos.

Sabia que era inútil continuar muito mais tempo a adiar a acção. O pensamento agora conduzia-o apenas e só, cada vez mais à inércia mais absoluta. Era preciso pôr em marcha o plano. Actos grandiosos estariam para breve.

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.



Clopin da Maia

04/08/2020

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