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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Desgostos

 Era Outubro de um ano muito comprido, ou assim parecia, e uma vez mais Diniz encontrava-se só.

O desgosto fazia-se sentir nas entranhas, como se um rato o roesse por dentro.

A humilhação rivalizava com o sentimento de perda. Um vazio apático e cinzento enchia-lhe o espírito e o coração só por inércia se mantinha pulsante. Também não conseguia chorar. Se era pela mesma inércia, ou se fruto do mesmo bloqueio que tinha vindo recentemente a sentir, que o impedia de expressar outro sentimento que não raiva em momentos como este, muito embora soubesse que se conseguisse abrir essa comporta, à torrente se seguiria um alívio balsâmico. A natureza deste bloqueio era mistério, pois certa humidade lhe acompanhava as órbitras ao mais ínfimo vestígio de emoções um pouco mais complexas.

A sua paixão de anos. Parecia finalmente tão, mas tão perto…. Tão certo.  Não compreendia – teria de haver certamente um qualquer gosto sádico do sexo feminino, uma conspiração em relação à sua pessoa – não havia outra explicação para tantos desgostos e desilusões. Cada vez mais acreditava andar a ter sido utilizado por todas as mulheres com quem privara ao longo dos anos, como um penso de nicotina, algo descartável, que supre temporariamente uma carência, imediatamente esquecido e trocado por outro.  Uma espécie de pousio para mulheres carentes e necessitadas. Apesar de no início da sua idade adulta nunca se ter preocupado muito com isso, entregando-se sempre livremente aos prazeres do convívio feminino, o passar dos anos e muitos desgostos, resgataram ao seu espírito todos os medos e inseguranças que a pós-adolescência, a custo, recalcara e se esforçara por esconder. Agora, com aquele que reconhecia ser o maior golpe emocional que já recebera, sentia-se no interior de um túnel muito escuro e frio, à margem do mundo quente e solarengo, assim como das pessoas cinzentas e sem rosto por quem passava: aquele seu grande amor, aquele vigoroso e imponente dos que queimam os olhos à primeira vista e fazem o coração crescer além do espaço que lhe é destinado, que torna possível a existência de uma infinidade de borboletas no estômago e faz levitar – sim… aquele grande, grande amor, dos quais são feitas as grandes tragédias - e também as comédias românticas na verdade, - após um reencontro ardente, o final feliz de qualquer novela, o auge da fantasia romântica e tremendista daquela alma incurável, esfumou-se de forma abrupta e fria. 

Tantos anos haviam passado desde o seu último grande amor, e agora, mesmo no momento em que se sentira de novo preparado a confiar o coração a uma nova eleita, que lho guardasse e cuidasse, havia parecido predestinação que fosse logo aquela criatura de cabelos áureos e olhos de oceano profundo, justamente a que lhe provocara taquicardias desde o primeiro momento em que a vira, havia já tantos anos.

Houve um “toca e foge” cruel, com se aquela odiosa criatura tivesse reaparecido àquele triste espectro de existência, só para lhe recordar que não era digno nem merecedor de tal presença. A chaga que nunca tivera oportunidade de abrir por ausência de acontecimento, teimava agora em não querer estancar.

E ele sentava-se ali a olhar e a chorar. A sonhar e a acordar. Mais uma terça-feira no bairro.


Clopin da Maia 

02/11/2020


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte III

 

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.

O preço pela sua identidade era assim já marcado de chagas que com dificuldade cicatrizariam, mas a consciência da sua natureza superior à da maioria dos Homens, sempre o levaram a confiar que do jogo de superação entre ID, Ego e Super-Ego, ao qual assistiria indiferente qual mero espectador, para recolher as vitórias, despojos de uma qualquer batalha. Algo de expiador havia na mágoa, talvez um equilíbrio kármico a ser reposto quando cumprisse a sua missão.

Sorria por isso, enquanto pensava mais uma vez, amargamente, que era um perigoso estalinista para a direita, um fascista execrável para a esquerda – talvez fosse essa a verdadeira natureza de um hipster do século XXI. Ainda que pudesse por vezes ter sido um pouco cruel naquele amesquinhar dos familiares, sempre se considerara um “bom rebelde” a quem a própria família haveria de reconhecer os méritos e se orgulhar de ser ele um dos seus; até porque até àquele momento, sempre lhe constrangera e atormentara o peso daquele passado, enquanto em segredo escondia até dos seus recriminatórios pensamentos, algum orgulho pela sua distinta estirpe. Era um pecado que tinha dificuldade em esconder e do qual se tentava libertar, até porque também por ele, precisava de provar ao mundo que era muito mais do que aquilo que nasceu.  

Estava agora deitado de costas na areia, na zona de rebentação das ondas mais baixas. Procurava que os pensamentos, mesmo os soltos e desconexos, se juntassem num puzzle que lhe sugerisse algum significado latente.

Talvez por tudo isto, a rejeição dos autoritarismos e das pulsões monárquicas familiares, chocavam com a sua busca pela liberdade e autodeterminação, tornando-o uma fonte de contradições internas do que o seu sentido de lógica acredita ter, e por isso, tenta sempre colmatar; é hoje uma das personagens mais contraditórias que existe no panorama político-partidário, social, cultural e económico português.   

Era este personagem que, engolindo agora alguns pirulitos, surpreendido por uma onda maior da maré que subia, estava convencido do seu perfeito controlo sobre todos os elementos que regem a sua vida, e que em breve, estava apostado nisso, mudaria o curso da história e o futuro de um país, de uma civilização.  


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte II

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.

O mundo iria mudar sob sua égide. Sabia que tinha de o fazer. Indubitável e inevitavelmente acabaria por o fazer.

O que o preocupava na verdade era as concessões que teria de fazer ao Sistema. Teria de sair daquela bolha e abraçar a comunicação de massas, falar para o povo, que estaria certamente sedento de informação e sabedoria, de alguém que pudessem admirar e que pudessem seguir – Ah! Como abominava os inglesismos abjectos, a epilepsia da comunicação e da imagem, a economia do tempo e da palavra! Era intolerável para si toda aquela conspurcação da sua amada língua materna, que sorrateiramente e através das gerações mais novas e despreparadas, que estava certo que incauta e inadvertidamente, contaminavam de anglos e francos vocábulos a fonia de Camões, agora já automaticamente como se de nativos termos se tratassem. Não havia volta, teria de vender a alma e prostituir o seu rosto, oferecer as suas palavras ao vento no caminho que escolhera de apelar às consciências que hoje eram órfãs da verdade.   

Olhou para trás. Mais da metade do caminho que fizera fora já apagado pelas ondas. Pensou ironicamente se seria aquela um bom exemplo do que a história lhe reservaria – Seria, à semelhança de tantos outros um nome de rodapé ou uma versão romanceada de si mesmo para quem o viesse a estudar? Quem o iria recordar? Historiadores certamente, mas e o povo, as pessoas, que tão importantes são para a construção de uma personagem no consciente colectivo…?

Pensou nas pessoas comuns.

Era já humilhante ter de se rebaixar a falar directamente para o povo iletrado, onde o analfabetismo funcional era pré-requisito para poder ingressar em qualquer mercado de trabalho. Teria de rebater ponto a ponto o discurso e propaganda dessa elite cultural e intelectual de esquerda, que monopolizavam toda a imprensa.

Deixou que o mar refrescasse os tornozelos e as barrigas das pernas. Baixou-se e apanhou um caço de água com as mãos, com que molhou a cara. Respirava fundo enquanto pensava em opiniões públicas e publicadas.  

Sabia que com as suas posições deveria ser catalogado de conservador reaccionário de direita, algo que rejeitava desde a juventude – não fora precisamente essa a génese da sua identidade, quando se rebelara com os trejeitos mui finíssimos e nobres da sua família patética, da qual muitos elementos guardavam ainda um orgulho bacoco por um passado de títulos nobiliárquicos e pertenças vastíssimas de terra e bens? Estava certo que ainda hoje tinha razão a demarcar-se ainda novo daquelas infindáveis reminiscências familiares sobre a cor azul do sangue e antepassados muito distantes (séculos!) e nobres! Não impusera um afastamento de valores e princípios quase que blasfemo em relação ao seu clã de origem? Via-se desde jovem como uma voz independente e livre, que denuncia o monopólio do sistema por grupos minoritários e permanentemente beneficiados, que desprezam a meritocracia e a capacidade individual de um ser humano de reinventar e superar.

Pousava agora a mochila e começava a despir a blusa de linho – a água estava demasiado boa para não mergulhar. Sempre sentira um enorme prazer e libertação em contacto com a areia e a água do mar. Nada era mais simples e verdadeiro que aquilo. Sorriu desdenhosamente – Era óbvio que qualquer geólogo, meteorologista ou especialista em oceanos e vida marinha discordaria desta afirmação, - como era chato e impossível tentar libertar a mente, a constatação permanente do quão pouco sabia sobre cada coisa tinha o dom de o irritar. Tão pouco saber apesar de tanto ler, tanto estudar, fazia com que se sentisse limitado, falível e mortal – um humano. Ironizou consigo mais uma vez – Se há tanto imbecil que percebe claramente muito menos do que eu dos assuntos de que fala e com os quais tem a presunção de produzir conteúdos que desinformam mais do que informam, certamente que o seu trabalho seria menos condenável, mais útil e preciso do que os restantes. 

Aproximou-se do mar, onde rebentavam já as ondas mais pequenas daquela zona da costa.

Retomou a linha de pensamento anterior - Sim, o sucesso de cada indivíduo dependia exclusivamente de si, não lhe fazia por isso sentido que os seus familiares se comportassem como se fossem membros da família real, quando o maior feito de todos eles teria sido o desbaratar do património da família ao longo de gerações, sem feitos, sem mérito, sem contribuição alguma para o país, para as pessoas ou para o crescimento intelectual e humano. Havia apenas uma infinidade de páginas em branco na história da família, uma ausência escandalosa da sua participação na história como qualquer livro poderia assertar; “Aristocracia falida e néscia, condenada ao olvido” - As imperdoáveis palavras que com tanto rancor atirara aos progenitores no início da sua idade homem, mas que até hoje lhe ecoavam na memória, tão reais como quando foram proferidas, mas dolorosas muito mais agora e a cada dia, definitivamente votado ao congraçamento possível com florestas nuas, de ciprestes.

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.



Clopin da Maia

07/08/2020

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Coração pela Arte

 

Diniz acorda hoje como sempre - pesado e cansado de mais uma noite mal dormida e cheia de sonhos estranhos e maus, recalques, arrependimentos e desejos frustrados.

Olheiras deitam sobre as bochechas.

De desespero e males de amor mal esquecidos, vive mal este coração; mas um mal de rosto jovem e alma velha.

Não que tudo seja breu nesta realidade que Diniz abraça no vulgo, que seria até caso de estudo para o mais temperado dos psiquiatras, fosse o caso deste nosso amigo alguma vez ter sido ou permitido ser observado e tratado. Há contrapartidas vantajosas.

É portanto de grande utilidade esta realidade que, a par desta aliteração, que compreensivelmente vos causará admirabilidade, podendo até, posteriormente, consoante vossa disponibilidade, propor-se a prazerosa adjectividade sobre a insanidade e irresponsabilidade que relatarei eu já nas próximas linhas, previsivelmente recheadas de uma jogralidade a que agora eu me proponho, procurando desafiar a vossa irritabilidade. 

Acontece que dos primeiros estilhaços de seu coração tiveram origem as primeiras letras e notas, versos e melodias, harmonias e epifanias artísticas de Diniz, o Infante Trovador Ostracizado da Capital.

Fosse ou não por este acaso, ou por todas as outras mágoas similares que se lhe seguiram, sempre que sístoles e diástoles se lhe recusaram à labuta, recusando irrigar toda e cada uma das extremidades suas, (o que, caso o sentido destas palavras fosse literal e não figurativo, certamente explicaria de forma muito mais eficaz e coerente os acontecimentos que vos procuro agora transmitir após este breve intervalo, de parêntesis dentro de um comentário lateral); sempre sentira Diniz um pico de humores, torpores, euforias e rancores que, como a noite, lhe tornara aguçados, vis e felinos os sentidos, também frios cruéis, ideias variadas inspirações, enfim, criatividades para ser um pouco mais ou menos sucinto, que isto já se sabe nos dias de hoje - as iliteracias e analfabetismos funcionais exigem todo um reforço de ideias idealizadas que vêm da cabeça, sendo necessário recorrer a vários pleonasmos, inúteis e repetitivos (lá está), assim como frases auto-explicativas de coisas que em tempos idosos de há meia dúzia de anos, não mais seriam que indício de promoção activa de nescianismo ou pura inépcia de uma das partes do discurso, mas não mais hoje, não se vá o sentido perder entre fuscas de moralistas, chinadas de beatificação do verbo e catataus de passivo-agressividade digital; destarte, acabei de ganhar uma aposta aos que declaram o meu pouco préstimo, ousando afirmar que não conseguiria prosar em verso, incluindo neologismos e uma Saramagaiada pelo meio de um conto funesto.

Voltando ao nosso triste Diniz, a conclusão a que este chegou em tempos pela mão de suas sombras pejadas pelos pontinhos de luz que são sua obra: teria de se resignar e abraçar a dor como irmã e amiga, por amor à Arte, à sua arte. É a dor sua desbloqueadora e fonte, permitindo-lhe ser honesto e intenso, a sua verdade intelectual e emocional, agora expiados para telas e letras, imagens e melodias. Acredita não ter hoje ter direito a ser feliz, se sua arte procura afinar, pois que fraca autoridade moral teria, não podendo assim produzir as suas obras com verdade de “v grande”; ora espera assim, quase sempre secretamente, que todos os seus novos grandes amores de sua vida se tornem rapidamente libertinas devassas e insensíveis. O coração partido é assim o combustível que o alimenta (desta vez, figurativa e literalmente).

A liberdade poética era o cárcere da sua felicidade.

É a razão pela qual hoje, aprendeu a amar as suas dores, desfruta cada segundo enquanto trapo emocional, antevendo horas de prazer, transformando aquelas lágrimas, certamente rubras, a vomição da alma, cuspindo as entranhas a cada novo vocábulo, movimento ou nota. A sua verdade é agora só uma:

“-Ser artista é ser um profissional do sofrimento”.

É assim o sofrimento o seu dever ético e moral, como uma espécie de doença profissional, mesmo como um estágio profissional interminável, como aqueles a que se destinam eternamente as jovens promessas à experiência. É o pacto que tem com o grande público – o seu Eu poético deveria sempre, na dúvida, ser favorecido em detrimento do seu Eu pessoal e intransmissível, invertendo a sua relação de subserviência, ou pelo menos é este o entendimento de um primo distante que é agora coach, um parecer de autoridade elevada nos dias que correm.   

O nosso Trovador se convence agora diariamente que tem controlo sobre todo este processo, ao contrário das suas primeiras crises adolescentes que, reconhece agora, foram desprovidas de controlo, tornando-o num ser errante e vagamente presente na realidade dos restantes mortais. É hoje ele quem conduz e manipula os seus estados de alma, chega a se convencer muitas vezes inclusive, que manipula e sabota propositadamente suas relações, sempre que sente sua fonte secar uma vez mais. Não admite por isso hoje as letargias irascíveis que o assombraram em idos anos, entre seus altos e baixos, e conduziam à inércia mais impotente. Mas deleita-se hoje com aqueles estados depressivos e dissociativos que lhe roubam parcialmente a capacidade de uma comunicação verbal mas não escrita, se apraz com eles agora, se abarcando a uma produção febril e obsessiva – horas, dias – semanas! - Em que sono e refeições viriam somente em superlativo biológico.

É no entanto paradoxal que se recuse ainda hoje a admitir que gosta de não ser feliz – pois se gosta de se sentir miserável, um ser destroçado e infeliz seria algo que o compraz, realizando-o. Nada podia ser pior.

Não pode consentir Ser-se em tão bons sentimentos. seria compreensivelmente, contraproducente.

Já me canso de tantos advérbios de modo. Adiante.

Apela por isso a toda a inércia latente do seu frágil corpo, esta igual à qualquer outro, todos os dias, de forma irremediável e inevitável, à infelicidade – quase como um caminho fastidioso e diário para um escritório enfadonho, retido por um trânsito mais aperreador ainda - é esta a sua demanda, para gáudio de uns, horror de outros, todos que se lhe abeiram. Não o demove isto, evidentemente, da sua obsessão pela miséria emocional, muito pelo contrário! – Jubila prazenteiro com a incompreensão alheia, chafurdando em autocomiseração adoçada pela cadência dos fonemas que o assaltam, ousando assim crer que faz justiça aos grandes poetas e artistas de antanho:

“ – Se me fazem feliz dar-me-ão um grande desgosto. “

Podemos nós pensar: esta luta, infindável até ver, todos os dias o assalta e pode evidenciar um combate com traços dramáticos - os seus dois “eu’s” (talvez os três?) num combate tão eterno e épico como o de Hórus e Seth, mito muito engraçado que no Egipto Antigo explicava a alternância entre dia e noite; deviam ser bons tipos pois gostavam de gatos; mas não pode tudo isto ser mais desinteressante e enfadonho a qualquer observador: pontualmente apenas Diniz perdia o controlo e exteriorizava suas emoções; em todo o restante tempo quando não estava a criando, se comportava como uma concha vazia e olhos ausentes.

Todos os dias enquanto este pastelão de alma temperamental acorda, bebe os seus chás primeiro, alonga o corpo e toma por fim o seu pequeno-almoço, ruminando-o, e pensa em si, no seu estado e sua arte - é evidente que se encontra num ciclo complicado de quebrar -Tão miserável como cómodo. Mudança exige outro tipo de coragem: uma ousadia que, suspeita, não traz consigo em todo aquele excesso de sentimentos, formação e carácter.

Respirava agora fundo.

Pela cortina passam recortes de luz amarelada e quente que acariciam aquele rosto com barba de três dias.

Um sorriso triste e melancólico incomoda o rosto ainda hirto do sono, parecia feito de gesso.

Pensa em tudo isto e em nada.

Sentado naquela sala desarrumada, os olhos vítreos revelam que uma viagem muito grande acontecia ali atrás.

Agitando a cabeça como que a afastar uma mosca incómoda: -Intimamente Diniz sabe, não desapareceu ainda o seu sonho infantil - uma felicidade plena e livre, amor completo e eterno; desconfia que este é provavelmente o último traço reminiscente de uma inocência e ingenuidade que julga agora perdida há muito.

Só alguém muito especial, a existir, será capaz de o resgatar daquela vida, quebrando o ciclo, convertendo-o aqueles processos internos. Duvida hoje que essa pessoa exista. Tampouco acha que seja justo para alguém que não ele ter aquela ingrata tarefa.

Está hoje já certo de que até ao fim dos seus dias será um D. Quixote lusófono; que cantará para moinhos a quem amará como amara o de Cervantes à sua doce Dulcineia, no entanto mesmo os moinhos inevitavelmente lhe quebrarão o coração, trocarão também sempre por homens mais abastados e dados a prazeres mais efémeros e profanos.

De certa forma não se importava demasiado em procurar e experimentar bastante por uma Dulcineia sua, pudesse esta estar quem sabe, disfarçada de moinho; espectativa era sempre a mesma: a próxima será a tal, ainda que o preço da demanda lhe custe uma alma em fiapos e vários exames médicos, pelo sim pelo não, que as carnes sendo fracas, são ainda fortes o suficiente para adormecer, fugazmente é certo, as dores da saudade de outras almas desconhecidas; não se negam por isso boas carnes alheias, não só porque ofensa cruel esta seria, também danos e recalques afrontaria a almas sensíveis carentes; aplacando assim o remorso vê-se Diniz como um serviçal do bem-estar social feminino, uma Misericórdia lírica, não procurando no entanto nenhum de nós os dois ofender ou conflituar com a respeitosa e mui importante instituição da Igreja, até porque justo não seria para nenhuma das partes.

O Sol poisava agora por quase todo o seu corpo enchendo-o de conforto e um sentimento sonolento de paz podre, onde apenas os pés frios ainda na sombra o prendiam à Terra distante de seus pensamentos.

O consumo da carne é também para Diniz limpeza do espírito e das vontades: se por um lado o desejo é preciso qual inspiração divina à criação, não é menos verdade que desejo longamente inibido tolda o discernimento – ao suprir a carência das actividades anatómicas recreativas de auto e interdescoberta, o espírito e a mente mais facilmente conseguem compreender o que realmente lhes interessa e agir mais sábia e incisivamente, pois é sabido que é complicado ao homem cruzar as pernas sem que se lhe aperte também o cérebro. 

Sim, tudo isto que vos conto é resultado de sinapses recorrentes e diárias do nosso herói trovador e jogral ao despertar, por consequência ainda os lábios não tocaram o primeiro café da manhã, já se encontra deprimido e cansado. Mas ele agora sabe. Diniz deseja real e intimamente a felicidade, liberdade e amor correspondidos.

Mas perderia, crê ele, o valor e dom da sua arte.

Na sua mente isto passou-se. Seguiu-se vazio. Cãibra mental.

O sol cobriu-se por uma pequena nuvem passageira, deixando um frio abrupto na pele que até ali iluminava.

-“Nuvens no me caminho? Apanho-as todas, um dia faço algodão doce para o Meu Coração…” – disse baixinho, sorrindo amargamente, sentindo-se estúpido, imbecil.

Limpando da barba o resto das migalhas do pequeno-almoço, deixa-se cair no sofá, em menos de um minuto está a dormir, enquanto uma lágrima do olho esquerdo escorria para o forro de pano deixando uma pequena marca que ninguém nunca veria. Sabemo-lo nós pela minha condição omnisciente e meta-linguaruda e é apenas um pormenor sórdido que achei por gosto indicar, sem quaisquer consequências.

Haviam decorrido anos intermináveis, sentia agora Diniz, entre a adolescência e a agora sua provecta e cansada idade de vinte e cinco anos, que lhe concediam já a licença para afirmar categoricamente e com propriedade vários assuntos, a maioria dos quais de coração, mas não de cardiologia. Ignora porém, muito mais do que gosta de admitir.

Sem saber que a sua odisseia ainda nem a meio vai, sonha agora com uma mulher sem rosto e um sorriso do mais belo que já viu, doce, alegre e calorosa, carinhosa e companheira, um corpo fantástico e guloso sem forma, correndo ao seu lado por dias solarengos em campos, florestas e praias.

Quando acordar vai odiar-se por isso. É um sonho quase palpável; o desespero tomará conta daquela mente sensível quando os pormenores se escorrerem da memória como a água entre os dedos.

Babava agora a camisa do pijama.

Escrito assim, fica bonito. 

 

Clopin da Maia

31/08/2020

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Entre Braçadas- Parte I

Aquela massa de água, azul dos azulejos e com um travo forte a cloro e lixívia, embora familiares, não eram suficientes nesse dia para acalmar completamente aquele espírito inquieto e perturbado. Entre braçadas mais ou menos vigorosas, o corpo que ali deslizava e alongava, era desconexo de um pensamento que, liberto da sua carne, caminhava longe.

Não teria tempo de cumprir em todo o seu tempo de vida, a missão que se propunha fazer e que conhecia desde novo, sabia que a ela estava destinado. Homero sabia que, afinal de contas, mudar sozinho um mundo à sua imagem, este que já mudava tão rápido a um ritmo diário, seria desafio megalómano e de grande monta até para os maiores cérebros que a humanidade já conheceu. Destes, se poucos haviam sido minimamente eficazes na História, que dificuldades encontraria ele então? Não, para aquela missão, precisaria mais do que a simples força do intelecto. Mas era indubitável que esta seria a missão de uma vida, a sua grande participação e contributo para a humanidade, uma prenda que, magnanimamente fazia questão de deixar como herança para todos os Homens.

 O tempo passava impiedoso, marcando-se no rosto um pouco todos os dias, já sulcado com as primeiras rugas de expressão. Os vindouros seriam implacáveis a julgar a sua inércia, ainda que, a sua existência seja incomensuravelmente melhor após a sua missão estar concluída – mas sempre soube que assim seria: os Homens nunca apreciam verdadeiramente o que têm e são, apenas enxergam o que lhes falta e o que que poderiam ter sido. Os historiadores dos séculos futuros, quando a distância lhes permitisse ser mais frios, distantes e lúcidos no julgamento – era com estes que contava para que justiça fosse feita à sua memória.

Agitava agora as pernas calçadas de grandes e pesadas barbatanas de borracha, deixando um rasto de água revolta. 

Não contava por isso nos próximos anos, dificilmente durante o seu tempo de vida, que perante o descalabro progressista a que assistia na cultura e valores, as palavras que andava a preparar com brio havia tantos anos, fossem bem recebidas e compreendidas. Seria pateado certamente. Restava-lhe ser forte e aspirar a ser tomado pela mesma coragem que em tempos agraciou Giordano Bruno.

Como quem tenta expulsar aqueles pensamentos incómodos corrosivos, esperneou com mais força e vigor.

Fragmentos de memórias e pensamentos aleatórios passeavam ténues e efémeras, dançando entre as gotas de água e vapor que embaciavam os óculos. O fundo deslizava, sereno.

Reflectia…

Quando mais tarde se sentou na areia à beira-mar, respirava com gosto aquela maresia salgada, entregando-se aos sabores da brisa estival, que lhe beijava agora o rosto ainda amargurado. Na mochila trazia consigo livros de poesia e um caderno de folhas brancas. Entregava-se agora de novo às sombras que lhe roubavam a luz dos olhos.

Sabia que era inútil continuar muito mais tempo a adiar a acção. O pensamento agora conduzia-o apenas e só, cada vez mais à inércia mais absoluta. Era preciso pôr em marcha o plano. Actos grandiosos estariam para breve.

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.



Clopin da Maia

04/08/2020

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Notícia

Era hora de jantar quando Camilo recebeu a notícia.

Pregado ao chão, sem ousar mexer um músculo, não fosse algo denunciá-lo à mulher e filhos. O momento em que o mundo parou - um cenário idílico e perfeito, refeição em família que ameaçava agora não mais se repetir.

O telemóvel parecia agora ter o peso de um tijolo, apesar de se encontrar estranhamente colado à orelha esquerda –“ Definitivamente não devia ter atendido” – pensou em pânico, perfeitamente consciente que ainda que assim tivesse sido, em nada isso mudaria o facto de que a sua vida perfeita estava prestes a mudar para sempre. Entre o turbilhão de pensamentos e imagens que agora começavam a escavar um cérebro que sentia agora seco e oco, não obstante a corrosão ácida, provavelmente de um remorso que veio tarde demais, pela sua mais absoluta estupidez.

Na verdade a vida já mudara, treze caracteres e vinte minutos atrás, apesar de até esse momento ele ainda não saber -  não tinha o hábito de consultar o telemóvel à hora das refeições, muito menos desde que Leonor, sua mulher, lhe reivindicara mais tempo para a família, sempre que este não se encontrasse em digressão.

Mas o silêncio prolongado à mensagem resultou num absoluto pânico por parte de Patty, que insistiu até que Camilo atendesse, pois as suas vidas iam mudar.

Claro, agora compreendia toda aquela insistência, não invalidando isso a realidade de que não podia haver pior momento para ser confrontado com aquela notícia, pois não só não sabia ainda como reagir, quanto mais como partilhar aquela informação fatídica.

Mais para ganhar tempo do que por outra coisa, resolveu perguntar, sem pensar “-Tens a certeza?” – sentindo-se de imediato ainda mais envergonhado e embaraçado, temendo a explosão que sabia que se ia seguir – já devia ter há muito tempo compreendido que não pode confiar nas primeiras palavras que lhe vêm à cabeça. O certo é que o pouco tempo que ganhou com esta pergunta não só foi inútil, pois continuava congelado, corpo e mente, como se imediatamente se confirmou o seu receio - Patty não achou piada nenhuma, o que a fez utilizar um conjunto de impropérios e vocábulos que Camilo sabia perfeitamente que em condições normais esta teria pudor de utilizar. Dando o tudo por tudo e implorando por um milagre, resolveu arriscar perguntar num esforço olímpico para parecer descontraído e casual:

- Podemos falar amanhã? Este não é o melhor momento.

- Desliga e em dez minutos estou à vossa porta! – era isso que ele temia. Engoliu em seco, pigarreou para soltar a voz:

- Então… Leo… por favor, não te chateias se eu for ao estúdio ter com a Patty? É urgente!

- Ela pode vir cá beber café a seguir ao jantar, calha bem que a sobremesa de hoje tenho a certeza de que gosta e tenho coisas para lhe contar! – Leonor a sorria enquanto se servia de vinho, claramente satisfeita por ter a oportunidade de poder partilhar coscuvilhices durante o serão...

Camilo engoliu em seco e hesitou, mas Patty que a ouviu resolveu ajudar – “ O backline que nos chegou hoje do patrocinador veio com defeito, preciso de ti para fazer o relatório técnico, que eu não percebo nada daquilo, temos de o encaminhar já amanhã, ou ainda corremos o risco de ser responsabilizados pelos danos. Daqui a meia hora no estúdio.” – Desligou.

- Pois Leo… ela está em furiosa, sabes? O novo equipamento que chegou do patrocinador veio defeituoso, tenho de a ajudar a fazer o relatório com os termos técnicos ainda esta noite, para devolver logo cedo, não vão eles lembrar-se de insinuar que fomos nós… – dissera tudo isto de uma penada sem respirar, acelerado e a transpirar.

O encolher de ombros de Leonor denunciou que não só não estava surpreendida como não achou graça à violação da promessa, ainda que por uma emergência. Camilo não se preocupou demasiado com isso, pois o que estava para vir tornava tudo isto irrelevante. Ainda assim passou o resto do jantar a tentar fazer um ar aborrecido e entediado pela noite de trabalho fora de horas que se avizinhava, sempre bastante maçador.

- Compreendo claro, - disse Leonor por fim - mas acho que a Patty tem exigido demasiado de ti, devias ser tu a exigir mais da tua agente e não o contrário!

Camilo hesitou, percebeu que se não afastasse a conversa daquele terreno pantanoso, corria o risco de se denunciar ainda antes do fim do jantar. A sentir o pânico a aumentar adiantou – “-Bem… sim…” Gaguejou e decidiu continuar -  “Mas de resto não tem corrido mal, ela tem sido incansável, além de digressões longas e bem pagas e rentáveis, ainda não gasto um cêntimo em equipamento ou instrumentos há quase quatro anos! São muito poucos os que têm este tipo de privilégios… “-

Leonor encolheu os ombros, numa atitude claramente derrotada e de quem decidiu não se chatear com aquilo, apesar de ele saber perfeitamente que na próxima oportunidade ela não deixaria de referir este episódio, mas depois percebeu que ela dificilmente precisaria de utilizar aquela situação como argumento para o que quer que fosse. Sim, a dúvida agora seria apenas quanto tempo demoraria ela a descobrir, ou se ele teria coragem para ser ele a comunicar-lhe aquelas novas, ou se descobriria ela primeiro.

O resto do jantar passou a uma velocidade alarmante, apesar de sofrível, mesmo porque sentia que tinha tentado comer bocados de cortiça.

Vinte minutos depois estava já dentro do carro. No que lhe pareceu um simples e fugaz momento, surpreendeu-se a estacionar já o carro junto ao estúdio. Quando começou realmente a cair em si, estava já a parar o carro junto do estúdio.

Parou o carro e respirou fundo. 


Clopin da Maia 

02/08/2020

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A Fúria

Não era a primeira vez que aquele pacato largo era perturbado pelo ruído de pancadas secas em metal frio e fibra de carbono, ainda que, nunca antes pelo responsável deste episódio.

As superfícies antes lisas dos automóveis da vizinhança encontravam-se agora irregulares, amolgadas e riscadas, longe da memória dos seus imaculados dias.

Foi assim que Diniz presenteou com os bons dias os moradores do Largo da Graça naquela fresca e cinzenta madrugada. A dor física que se infligia a par do prazer selvagem que lhe proporcionavam os danos causados à propriedade alheia, não eram no entanto o suficiente para aplacar toda a sua ira e frustração daquele momento.

Desgostos amorosos. De certa forma, os vizinhos mais próximos sabiam já a volatilidade de humores a que estavam sujeitos, embora até hoje não lhes tivesse causado qualquer dano. Já o mesmo não se pode dizer da maçada provocada pelos já frequentes ruídos, qual animal ferido de morte que, pontuavam os ruídos rotineiros daquele bairro, sempre que Diniz enfrentava mais um desgosto de um dos seus amores de perdição. Duas a quatro vezes por semana, consoante a estação.

Nestes momentos, sugerir que deveria haver qualquer coisa que se aparente com racionalidade ou razoabilidade, teria tanto efeito como agarrar o vento com as mãos. Fora sempre assim desde que se mudara para o bairro.

Olhos assassinos e cruéis trespassavam qualquer louco incauto que o abordasse e fosse menos que encantador, compreensivo, compassivo.

A rejeição e o desgosto, definitivamente não lhe caiam bem.

Quem não o conhecesse suficientemente bem, tomá-lo-iam certamente pelo seu gémeo mau, se de uma novela barata esta cena se tratasse –não era possível ser aquela a mesma pessoa que era um encanto para todos os velhinhos, crianças e animais! O lírico do bairro, trovador, bom vivã e boémio, cavalheiro educado e charmoso, sempre bem-disposto e sorridente, a alma de todas as festas, estrela de todos os convívios e eventos da freguesia.

Mas hoje não era essa pessoa. Hoje era a pessoa violenta e cega que fez disparar já cinco alarmes automóveis e partiu, à boa e velha força da pedrada, um dos vidros do quartel de Bombeiros. Como seria preciso o sol estar já bem alto para Diniz cair em si, assim como para se aperceber das implicações deste “virar da boneca”, não tinha ainda especial cuidado em se esconder ou sair rapidamente da zona do crime. Naquele momento nada mais lhe importava, não queria saber que era um artista independente e sem contractos, tampouco rendimentos fixos, que certamente teria prejuízos e problemas com a justiça e muito dificilmente capacidade de cobrir os prejuízos. Provavelmente nem se importaria de ser castigado e coagido, só mais uma lição para se forçar a aprender, por se ter permitido voltar a perder o controlo daquela maneira. Não era hábito perder por completo o sentido das coisas, ele que era tão cuidadoso com os maus sentimentos, que optava por se deixar afundar de tristezas e desgostos, ânsias letárgicas e depressivas, se permitia até chorar em público, aceitar a vergonha e a humilhação como penitência pela fraqueza de exibir orgulhosamente os seus sentimentos, como era natureza das almas fracas – sujeitava-se a tudo isto pois além de alimento à sua arte, era também a forma de descompressão que lhe permitia já, desde há tanto tempo, não perder o controlo sobre si para aqueles sentimentos nojentos e inferiores, como efectivamente se concretizou após anos de muitas ameaças.

Mas hoje o ódio e o ressentimento ferviam-lhe nas veias como veneno.

A dor da rejeição, o desespero do cansaço e da carência, eram sentidos como uma serra que, despedaçando os ossos em estilhaços aguçados, os mantivesse depois no lugar mas em brasas, que consomem as suas carnes lentamente, enquanto sente as entranhas a serem-lhe sugadas por um buraco negro que infringe todas as leis da física conhecida.

 

A verdade crua naquele momento, era dura e implacável aos seus olhos – nenhuma mulher ama realmente, serão todas iguais, criaturas frias e pútridas sem coração, que se alimentam sempre que podem do seu. Estava condenado a amar eternamente criaturas para quem a palavra amor seria, a seu ver, um palavrão indecifrável.   

Já mais abaixo no Miradouro, tornava-se difícil perceber se ainda teria a cara marcada pelo trilho das lágrimas, pois a aragem fresca da noite dera lugar à brisa quente da manhã dourada, que beijava já um Tejo coalhado. Não estava ainda certo de se querer importar com o que os turistas que começavam a aparecer pudessem pensar. Estava a pensar que tivera sorte de chegar ali sem que ninguém o abordasse nem, aparentemente, perceber que fora ele o causador do tumulto madrugador do bairro, quando um grupo de raparigas, aparentemente alemãs, começaram a tirar fotografias e a soltar gargalhadinhas histéricas ao seu lado.

Não deviam ter mais que vinte e cinco anos.

Não conseguindo deixar de reparar que todas elas eram, na verdade, bastante bonitas e bem-feitas, não pôde deixar também de se irritar com todo aquele entusiasmo e poses que claramente se destinavam a ser partilhadas nas redes sociais. Algo no tom de voz daquelas jovens mulheres teve o dom de o irritar profundamente.

Uma delas era, vista de trás, muito parecida com a grande responsável pelo seu desgosto amoroso dessa madrugada...

Cerrou os dentes qual animal raivoso. Inspirou bem fundo pelo nariz sete vezes e engoliu mais três golfadas de rajada, dez respirações, que na verdade deu para contar até trinta, tal era a ansiedade que o assaltava já e o medo do que estava prestes a fazer; sentiu uma forte vertigem e sensação de esmagamento enquanto o coração lhe tentava fugir pela boca, uma vez que as costelas em que este batia freneticamente, ainda que já doridas, permaneciam inteiras, certamente aquele músculo vítima de tantos desgostos estaria prestes a rasgar e a parar, seria questão de momentos, e nesse momento a voz traiu-o, fugindo-lhe como um rugido de guerra:

“- SÃO TODAS UMAS PUTAS!!!!” – Não tinha terminado ainda a frase, já manchas negras lhe tapavam o sol dos olhos, vomitou, deu dois passos débeis, teve apenas tempo de adiantar os joelhos para amparar a queda e Diniz Oliveira de Campos desmaiou.

 

Clopin da Maia

30/06/2020