Não era a primeira vez que aquele pacato largo era perturbado pelo ruído de pancadas secas em metal frio e fibra de carbono, ainda que, nunca antes pelo responsável deste episódio.
As superfícies antes lisas dos automóveis da vizinhança encontravam-se agora irregulares, amolgadas e riscadas, longe da memória dos seus imaculados dias.
Foi assim que Diniz presenteou com os bons dias os moradores do Largo da Graça naquela fresca e cinzenta madrugada. A dor física que se infligia a par do prazer selvagem que lhe proporcionavam os danos causados à propriedade alheia, não eram no entanto o suficiente para aplacar toda a sua ira e frustração daquele momento.
Desgostos amorosos. De certa forma, os vizinhos mais próximos sabiam já a volatilidade de humores a que estavam sujeitos, embora até hoje não lhes tivesse causado qualquer dano. Já o mesmo não se pode dizer da maçada provocada pelos já frequentes ruídos, qual animal ferido de morte que, pontuavam os ruídos rotineiros daquele bairro, sempre que Diniz enfrentava mais um desgosto de um dos seus amores de perdição. Duas a quatro vezes por semana, consoante a estação.
Nestes momentos, sugerir que deveria haver qualquer coisa que se aparente com racionalidade ou razoabilidade, teria tanto efeito como agarrar o vento com as mãos. Fora sempre assim desde que se mudara para o bairro.
Olhos assassinos e cruéis trespassavam qualquer louco
incauto que o abordasse e fosse menos que encantador, compreensivo, compassivo.
A rejeição e o desgosto, definitivamente não lhe caiam
bem.
Quem não o conhecesse suficientemente bem, tomá-lo-iam certamente pelo seu gémeo mau, se de uma novela barata esta cena se tratasse –não era possível ser aquela a mesma pessoa que era um encanto para todos os velhinhos, crianças e animais! O lírico do bairro, trovador, bom vivã e boémio, cavalheiro educado e charmoso, sempre bem-disposto e sorridente, a alma de todas as festas, estrela de todos os convívios e eventos da freguesia.
Mas hoje não era essa pessoa. Hoje era a pessoa violenta e cega que fez disparar já cinco alarmes automóveis e partiu, à boa e velha força da pedrada, um dos vidros do quartel de Bombeiros. Como seria preciso o sol estar já bem alto para Diniz cair em si, assim como para se aperceber das implicações deste “virar da boneca”, não tinha ainda especial cuidado em se esconder ou sair rapidamente da zona do crime. Naquele momento nada mais lhe importava, não queria saber que era um artista independente e sem contractos, tampouco rendimentos fixos, que certamente teria prejuízos e problemas com a justiça e muito dificilmente capacidade de cobrir os prejuízos. Provavelmente nem se importaria de ser castigado e coagido, só mais uma lição para se forçar a aprender, por se ter permitido voltar a perder o controlo daquela maneira. Não era hábito perder por completo o sentido das coisas, ele que era tão cuidadoso com os maus sentimentos, que optava por se deixar afundar de tristezas e desgostos, ânsias letárgicas e depressivas, se permitia até chorar em público, aceitar a vergonha e a humilhação como penitência pela fraqueza de exibir orgulhosamente os seus sentimentos, como era natureza das almas fracas – sujeitava-se a tudo isto pois além de alimento à sua arte, era também a forma de descompressão que lhe permitia já, desde há tanto tempo, não perder o controlo sobre si para aqueles sentimentos nojentos e inferiores, como efectivamente se concretizou após anos de muitas ameaças.
Mas hoje o ódio e o ressentimento ferviam-lhe nas veias como veneno.
A dor da rejeição, o desespero do cansaço e da carência,
eram sentidos como uma serra que, despedaçando os ossos em estilhaços aguçados,
os mantivesse depois no lugar mas em brasas, que consomem as suas carnes
lentamente, enquanto sente as entranhas a serem-lhe sugadas por um buraco negro
que infringe todas as leis da física conhecida.
A verdade crua naquele momento, era dura e implacável aos seus olhos – nenhuma mulher ama realmente, serão todas iguais, criaturas frias e pútridas sem coração, que se alimentam sempre que podem do seu. Estava condenado a amar eternamente criaturas para quem a palavra amor seria, a seu ver, um palavrão indecifrável.
Já mais abaixo no Miradouro, tornava-se difícil perceber se ainda teria a cara marcada pelo trilho das lágrimas, pois a aragem fresca da noite dera lugar à brisa quente da manhã dourada, que beijava já um Tejo coalhado. Não estava ainda certo de se querer importar com o que os turistas que começavam a aparecer pudessem pensar. Estava a pensar que tivera sorte de chegar ali sem que ninguém o abordasse nem, aparentemente, perceber que fora ele o causador do tumulto madrugador do bairro, quando um grupo de raparigas, aparentemente alemãs, começaram a tirar fotografias e a soltar gargalhadinhas histéricas ao seu lado.
Não deviam ter mais que vinte e cinco anos.
Não conseguindo deixar de reparar que todas elas eram, na
verdade, bastante bonitas e bem-feitas, não pôde deixar também de se irritar
com todo aquele entusiasmo e poses que claramente se destinavam a ser
partilhadas nas redes sociais. Algo no tom de voz daquelas jovens mulheres teve
o dom de o irritar profundamente.
Uma delas era, vista de trás, muito parecida com a grande
responsável pelo seu desgosto amoroso dessa madrugada...
Cerrou os dentes qual animal raivoso. Inspirou bem fundo pelo
nariz sete vezes e engoliu mais três golfadas de rajada, dez respirações, que
na verdade deu para contar até trinta, tal era a ansiedade que o assaltava já e
o medo do que estava prestes a fazer; sentiu uma forte vertigem e sensação de
esmagamento enquanto o coração lhe tentava fugir pela boca, uma vez que as
costelas em que este batia freneticamente, ainda que já doridas, permaneciam
inteiras, certamente aquele músculo vítima de tantos desgostos estaria prestes
a rasgar e a parar, seria questão de momentos, e nesse momento a voz traiu-o,
fugindo-lhe como um rugido de guerra:
“- SÃO TODAS UMAS PUTAS!!!!” – Não tinha terminado ainda
a frase, já manchas negras lhe tapavam o sol dos olhos, vomitou, deu dois
passos débeis, teve apenas tempo de adiantar os joelhos para amparar a queda e
Diniz Oliveira de Campos desmaiou.
Clopin
da Maia
30/06/2020
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