Era hora
de jantar quando Camilo recebeu a notícia.
Pregado ao chão, sem
ousar mexer um músculo, não fosse algo denunciá-lo à mulher e filhos. O momento
em que o mundo parou - um cenário idílico e perfeito, refeição em família que
ameaçava agora não mais se repetir.
O telemóvel parecia agora
ter o peso de um tijolo, apesar de se encontrar estranhamente colado à orelha
esquerda –“ Definitivamente não devia ter atendido” – pensou em pânico,
perfeitamente consciente que ainda que assim tivesse sido, em nada isso mudaria
o facto de que a sua vida perfeita estava prestes a mudar para sempre. Entre o
turbilhão de pensamentos e imagens que agora começavam a escavar um cérebro que
sentia agora seco e oco, não obstante a corrosão ácida, provavelmente de um
remorso que veio tarde demais, pela sua mais absoluta estupidez.
Na verdade a
vida já mudara, treze caracteres e vinte minutos atrás, apesar de até esse
momento ele ainda não saber - não tinha o hábito de consultar o telemóvel
à hora das refeições, muito menos desde que Leonor, sua mulher, lhe
reivindicara mais tempo para a família, sempre que este não se encontrasse em
digressão.
Mas o silêncio prolongado
à mensagem resultou num absoluto pânico por parte de Patty, que insistiu até
que Camilo atendesse, pois as suas vidas iam mudar.
Claro, agora compreendia
toda aquela insistência, não invalidando isso a realidade de que não podia
haver pior momento para ser confrontado com aquela notícia, pois não só não
sabia ainda como reagir, quanto mais como partilhar aquela informação fatídica.
Mais para ganhar tempo do
que por outra coisa, resolveu perguntar, sem pensar “-Tens a certeza?” –
sentindo-se de imediato ainda mais envergonhado e embaraçado, temendo a
explosão que sabia que se ia seguir – já devia ter há muito tempo compreendido
que não pode confiar nas primeiras palavras que lhe vêm à cabeça. O certo é que
o pouco tempo que ganhou com esta pergunta não só foi inútil, pois continuava
congelado, corpo e mente, como se imediatamente se confirmou o seu receio - Patty
não achou piada nenhuma, o que a fez utilizar um conjunto de impropérios e
vocábulos que Camilo sabia perfeitamente que em condições normais esta teria
pudor de utilizar. Dando o tudo por tudo e implorando por um milagre, resolveu
arriscar perguntar num esforço olímpico para parecer descontraído e casual:
- Podemos falar amanhã?
Este não é o melhor momento.
- Desliga e em dez
minutos estou à vossa porta! – era isso que ele temia. Engoliu em seco,
pigarreou para soltar a voz:
- Então… Leo… por favor,
não te chateias se eu for ao estúdio ter com a Patty? É urgente!
- Ela pode vir cá beber
café a seguir ao jantar, calha bem que a sobremesa de hoje tenho a certeza de
que gosta e tenho coisas para lhe contar! – Leonor a sorria enquanto se servia
de vinho, claramente satisfeita por ter a oportunidade de poder partilhar
coscuvilhices durante o serão...
Camilo engoliu em seco e
hesitou, mas Patty que a ouviu resolveu ajudar – “ O backline que nos chegou
hoje do patrocinador veio com defeito, preciso de ti para fazer o relatório
técnico, que eu não percebo nada daquilo, temos de o encaminhar já amanhã, ou
ainda corremos o risco de ser responsabilizados pelos danos. Daqui a meia hora
no estúdio.” – Desligou.
- Pois Leo… ela está em furiosa,
sabes? O novo equipamento que chegou do patrocinador veio defeituoso, tenho de
a ajudar a fazer o relatório com os termos técnicos ainda esta noite, para devolver
logo cedo, não vão eles lembrar-se de insinuar que fomos nós… – dissera tudo
isto de uma penada sem respirar, acelerado e a transpirar.
O encolher de ombros de Leonor
denunciou que não só não estava surpreendida como não achou graça à violação da
promessa, ainda que por uma emergência. Camilo não se preocupou demasiado com
isso, pois o que estava para vir tornava tudo isto irrelevante. Ainda assim
passou o resto do jantar a tentar fazer um ar aborrecido e entediado pela noite
de trabalho fora de horas que se avizinhava, sempre bastante maçador.
- Compreendo claro, -
disse Leonor por fim - mas acho que a Patty tem exigido demasiado de ti, devias
ser tu a exigir mais da tua agente e não o contrário!
Camilo hesitou, percebeu
que se não afastasse a conversa daquele terreno pantanoso, corria o risco de se
denunciar ainda antes do fim do jantar. A sentir o pânico a aumentar adiantou –
“-Bem… sim…” Gaguejou e decidiu continuar - “Mas de resto não tem corrido mal, ela tem
sido incansável, além de digressões longas e bem pagas e rentáveis, ainda não
gasto um cêntimo em equipamento ou instrumentos há quase quatro anos! São muito
poucos os que têm este tipo de privilégios… “-
Leonor encolheu os
ombros, numa atitude claramente derrotada e de quem decidiu não se chatear com
aquilo, apesar de ele saber perfeitamente que na próxima oportunidade ela não
deixaria de referir este episódio, mas depois percebeu que ela dificilmente
precisaria de utilizar aquela situação como argumento para o que quer que
fosse. Sim, a dúvida agora seria apenas quanto tempo demoraria ela a descobrir,
ou se ele teria coragem para ser ele a comunicar-lhe aquelas novas, ou se
descobriria ela primeiro.
O resto do jantar passou
a uma velocidade alarmante, apesar de sofrível, mesmo porque sentia que tinha
tentado comer bocados de cortiça.
Vinte minutos depois
estava já dentro do carro. No que lhe pareceu um simples e fugaz momento,
surpreendeu-se a estacionar já o carro junto ao estúdio. Quando começou
realmente a cair em si, estava já a parar o carro junto do estúdio.
Parou o carro e respirou
fundo.
Clopin da Maia
02/08/2020
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