quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Notícia

Era hora de jantar quando Camilo recebeu a notícia.

Pregado ao chão, sem ousar mexer um músculo, não fosse algo denunciá-lo à mulher e filhos. O momento em que o mundo parou - um cenário idílico e perfeito, refeição em família que ameaçava agora não mais se repetir.

O telemóvel parecia agora ter o peso de um tijolo, apesar de se encontrar estranhamente colado à orelha esquerda –“ Definitivamente não devia ter atendido” – pensou em pânico, perfeitamente consciente que ainda que assim tivesse sido, em nada isso mudaria o facto de que a sua vida perfeita estava prestes a mudar para sempre. Entre o turbilhão de pensamentos e imagens que agora começavam a escavar um cérebro que sentia agora seco e oco, não obstante a corrosão ácida, provavelmente de um remorso que veio tarde demais, pela sua mais absoluta estupidez.

Na verdade a vida já mudara, treze caracteres e vinte minutos atrás, apesar de até esse momento ele ainda não saber -  não tinha o hábito de consultar o telemóvel à hora das refeições, muito menos desde que Leonor, sua mulher, lhe reivindicara mais tempo para a família, sempre que este não se encontrasse em digressão.

Mas o silêncio prolongado à mensagem resultou num absoluto pânico por parte de Patty, que insistiu até que Camilo atendesse, pois as suas vidas iam mudar.

Claro, agora compreendia toda aquela insistência, não invalidando isso a realidade de que não podia haver pior momento para ser confrontado com aquela notícia, pois não só não sabia ainda como reagir, quanto mais como partilhar aquela informação fatídica.

Mais para ganhar tempo do que por outra coisa, resolveu perguntar, sem pensar “-Tens a certeza?” – sentindo-se de imediato ainda mais envergonhado e embaraçado, temendo a explosão que sabia que se ia seguir – já devia ter há muito tempo compreendido que não pode confiar nas primeiras palavras que lhe vêm à cabeça. O certo é que o pouco tempo que ganhou com esta pergunta não só foi inútil, pois continuava congelado, corpo e mente, como se imediatamente se confirmou o seu receio - Patty não achou piada nenhuma, o que a fez utilizar um conjunto de impropérios e vocábulos que Camilo sabia perfeitamente que em condições normais esta teria pudor de utilizar. Dando o tudo por tudo e implorando por um milagre, resolveu arriscar perguntar num esforço olímpico para parecer descontraído e casual:

- Podemos falar amanhã? Este não é o melhor momento.

- Desliga e em dez minutos estou à vossa porta! – era isso que ele temia. Engoliu em seco, pigarreou para soltar a voz:

- Então… Leo… por favor, não te chateias se eu for ao estúdio ter com a Patty? É urgente!

- Ela pode vir cá beber café a seguir ao jantar, calha bem que a sobremesa de hoje tenho a certeza de que gosta e tenho coisas para lhe contar! – Leonor a sorria enquanto se servia de vinho, claramente satisfeita por ter a oportunidade de poder partilhar coscuvilhices durante o serão...

Camilo engoliu em seco e hesitou, mas Patty que a ouviu resolveu ajudar – “ O backline que nos chegou hoje do patrocinador veio com defeito, preciso de ti para fazer o relatório técnico, que eu não percebo nada daquilo, temos de o encaminhar já amanhã, ou ainda corremos o risco de ser responsabilizados pelos danos. Daqui a meia hora no estúdio.” – Desligou.

- Pois Leo… ela está em furiosa, sabes? O novo equipamento que chegou do patrocinador veio defeituoso, tenho de a ajudar a fazer o relatório com os termos técnicos ainda esta noite, para devolver logo cedo, não vão eles lembrar-se de insinuar que fomos nós… – dissera tudo isto de uma penada sem respirar, acelerado e a transpirar.

O encolher de ombros de Leonor denunciou que não só não estava surpreendida como não achou graça à violação da promessa, ainda que por uma emergência. Camilo não se preocupou demasiado com isso, pois o que estava para vir tornava tudo isto irrelevante. Ainda assim passou o resto do jantar a tentar fazer um ar aborrecido e entediado pela noite de trabalho fora de horas que se avizinhava, sempre bastante maçador.

- Compreendo claro, - disse Leonor por fim - mas acho que a Patty tem exigido demasiado de ti, devias ser tu a exigir mais da tua agente e não o contrário!

Camilo hesitou, percebeu que se não afastasse a conversa daquele terreno pantanoso, corria o risco de se denunciar ainda antes do fim do jantar. A sentir o pânico a aumentar adiantou – “-Bem… sim…” Gaguejou e decidiu continuar -  “Mas de resto não tem corrido mal, ela tem sido incansável, além de digressões longas e bem pagas e rentáveis, ainda não gasto um cêntimo em equipamento ou instrumentos há quase quatro anos! São muito poucos os que têm este tipo de privilégios… “-

Leonor encolheu os ombros, numa atitude claramente derrotada e de quem decidiu não se chatear com aquilo, apesar de ele saber perfeitamente que na próxima oportunidade ela não deixaria de referir este episódio, mas depois percebeu que ela dificilmente precisaria de utilizar aquela situação como argumento para o que quer que fosse. Sim, a dúvida agora seria apenas quanto tempo demoraria ela a descobrir, ou se ele teria coragem para ser ele a comunicar-lhe aquelas novas, ou se descobriria ela primeiro.

O resto do jantar passou a uma velocidade alarmante, apesar de sofrível, mesmo porque sentia que tinha tentado comer bocados de cortiça.

Vinte minutos depois estava já dentro do carro. No que lhe pareceu um simples e fugaz momento, surpreendeu-se a estacionar já o carro junto ao estúdio. Quando começou realmente a cair em si, estava já a parar o carro junto do estúdio.

Parou o carro e respirou fundo. 


Clopin da Maia 

02/08/2020

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