Camilo Alberto Reis nasceu a 10 de Março de
1963, numa aldeia nos arredores de Tabuaço. De família tradicional e humilde de
camponeses, aprendeu a ler com o padre Otelo, que ministrava nas várias aldeias
da região, tendo assim as suas primeiras leituras privilegiado os textos
bíblicos.
O interesse pela música foi muito precoce:
entoando desde sempre com entusiasmo cânticos litúrgicos, apesar de,
evidentemente pela idade que tinha à data, o significado daquelas palavras o
ultrapassar largamente. Talvez tenha sido por esta razão que Camilo tenha caído
em graça ao pároco, que com a concordância dos pais e contribuição de alguns
aldeãos, lhe ofereceu em 1971, por ocasião do seu oitavo aniversário, uma
guitarra e começou a ensinar música, sob a contrapartida de auxiliar nas
diversas missas que dava aos domingos pelas várias aldeias da paróquia.
Quando aos seus doze anos o pai adoece
gravemente, dificultando a condição económica já precária da família, Camilo é
enviado a Lisboa para viver com uma tia paterna, solteira e avançada em anos,
mas que lá servia desde os seus vinte anos, em casa de um proprietário
industrial e de sua família.
Camilo recém-chegado à capital, apesar de bem
tratado pela tia que o incentiva a prosseguir os estudos, precisa para isso de
arranjar forma de suportar as despesas. Vivem-se então os primeiros anos de
regime Democrático, ânimos e fervores políticos ao rubro, confrontos
ideológicos e um momento de ruptura e inovação nas artes, fruto de uma torrente
agora liberta, e da livre circulação de novidades vindas do estrangeiro. É na
sequência de tudo isto que Camilo consegue o seu primeiro emprego como ardina,
função que curiosamente viria a ser a maior responsável pelo seu interesse
crescente pelas letras, começando por ser um ávido leitor, mas rapidamente impulsionado
a também ele escrever os primeiros textos, os primeiros versos.
A música durante todo este período não ficou
ausente – junto com a parca bagagem que levara para Lisboa, veio também a sua guitarra,
que toca agora diariamente, animando já então por vezes alguns serões
frequentados por alguns nomes proeminentes da vida cultural lisboeta.
Aos dezasseis anos tinha-se já tornado uma
figura típica da cidade, atravessando um dos seus períodos de maior produção
literária, dedicando-se quase exclusivamente aos textos líricos, dividido entre
os versos destinados à declamação no serão seguinte, àqueles que, por sugestão
e motivação de vários, começara a incluir nas primeiras composições musicais
originais, mas sobretudo, destinando a grande maioria dos seus escritos ao «Notas em Bloco» – o extinto folhetim
semanal que procurava compilar as novidades culturais e artísticas na capital,
que foi editado até meados de 1986.
Entre os finais dos anos 70 e início dos 80’s
estava então dividido entre dois espíritos poético-líricos que se digladiavam –
o que vivia o espírito do tempo, idealista, combatendo as injustiças sociais,
denunciando a exploração do Homem pelo Homem; mas também aquele que já então
acreditava intemporal: romântico, sonhador, em última instância, o seu “eu” mais lírico.
Foi neste conflito interno lírico que
presenciou o boom do pop/rock
português, até então quase exclusivamente dominado pelo fado e o canto-autor de
intervenção abrilino.
Nesta altura, entusiasmado pela sensação de
poder que era proporcionada por esta nova sonoridade, decidiu no início do
Verão de 1982 comprar a prestações uma guitarra eléctrica e um amplificador a
válvulas – desfiou três dos colegas de redacção para que o acompanhassem na
demanda, fundando assim Ruídos Verbais,
que rapidamente passou a quinteto, quando convidaram a irmã mais nova do
viola-baixo Jorge Ganhão, Rita, a integrar o grupo para auxiliar nas vozes.
Misturando um som pesado de punk-rock, com sons de teclas e sintetizadores
psicadélicos de Nascimento, aliando
ao trabalho vocal e composição cuidada das suas letras, sendo inequivocamente
uma banda rock, foi talvez um dos projectos musicais mais ousados e diferentes
que o panorama musical português conheceu naqueles anos, recebendo críticas
bastante díspares da indústria, que iam desde “som caótico e indefinido” a “banda
de pretensos poetas”, não deixando por isso de ter sempre os seus concertos
com uma lotação elevada e regular, com um público fiel e dedicado, fenómeno
pouco comum naquela época. No início da primavera de 1989 foi feito o anúncio:
após o final da digressão desse ano, o grupo iria separar-se – Pedro Reis, baterista, iria assumir um
cargo de gestão na empresa da família, que o impediria de continuar a fazer
vida de estrada; Rita Ganhão, recém-casada
aguardava agora ser mãe perto do final desse ano; Fernando Nascimento, teclista, também decidira terminar a Faculdade
de Letras, dedicar-se à família e tornar-se romancista. Será num destes últimos
concertos que Camilo irá travar conhecimento, e progressivamente uma relação
franca de amizade, com o jovem João Gilberto Mourão, mais tarde conhecido e
reconhecido pelo nome artístico “Júan”
João Bernardo, O Cavaleiro de Pau do Apocalipse, com quem viria a trabalhar
e colaborar em diversas ocasiões.
Terminando de forma apoteótica a digressão que
pôs termo a Ruídos Verbais,
assegurando-lhes para a posterioridade um lugar na história da música
portuguesa, Camilo agora decide continuar em nome próprio – prepara nos dois
anos seguintes a nova etapa da sua carreira.
Quando no final de 1991 regressa aos palcos, apresenta
o álbum Verbos Sentidos, em uma clara
referência ao grupo agora desfeito, procurando assim ainda capitalizar o
mediatismo e seguidores que este nome ainda lhe poderia proporcionar; é já contudo
perceptível uma grande mudança de tom: finalmente ganhava abertamente
preponderância nos seus versos, a sua versão mais romântica, mais cândida, mais
popular. As críticas não se fizeram esperar: alguns dos antigos admiradores do
grupo, revoltados com o nome dado ao álbum, chegaram mesmo a acusar Camilo de
manchar o legado do colectivo.
A pequena polémica no entanto, não foi suficiente
para manchar o que se tornou agora um verdadeiro fenómeno – ainda que o novo
registo pudesse alienar alguns dos antigos admiradores, não havia dúvida de que
Camilo soubera interpretar e aproveitar a oportunidade, posicionando-se ao
serviço da música romântica, mas utilizando todo o léxico e sintaxe da canção
pop/rock, pois o público português embora o não soubesse, carecia de romantismo
cantado “à lás” novas expressões: letras
românticas e sentimentais, onde também se reflecte a pequena inquietação e
angústia quotidiana do cidadão, amante claro está.
Seguiram-se mais dois discos de originais: Sentidos Perdidos e Perdida Ilusão, em 1992 e 1994 respectivamente, gravando o seu
primeiro disco ao vivo em 1995, no Auditório Municipal Incrível Invicto, onde
contou com a participação especial dos antigos elementos dos Ruídos Verbais, e ainda de António Pinto Basto, Janita Salomé e Artur Gonçalves.
Nunca deixando de escrever, Camilo procurou
sempre manter a sua actividade literária independente da musical, sendo
convidado a partir de 1995 a compor uma crítica musical semanal num dos jornais
de maior tiragem nacional.
Durante a digressão de 1996, onde apresentava o
novo álbum Ilusão Tentadora, conhece
Leonor, por quem se apaixona. Ainda no final deste ano começam a namorar
No início de 1997, num pequeno regresso às
raízes aceita fazer, periodicamente, uma rubrica radiofónica na Rádio Regional de Tabuaço. Neste ano lança
ainda o single Ilusão Indolora,
preparando caminho para o disco a sair pouco antes do Natal desse ano, com o
nome inicialmente previsto de Tentação
Salvadora, mas quando nesse ano sai o filme Tentação de Joaquim Leitão,
com um disco de Xutos & Pontapés
com o mesmo nome, para evitar ser confundido ou algum tipo de conflito
comercial, alterou o nome do álbum para Salvação
Tentadora.
No início do Verão de 1998, com a digressão
quase a meio, Camilo e Leonor casam numa cerimónia privada. Em Julho actua na Expo 98. Em Novembro, durante uma
entrevista à rádio nacional, Camilo divulga que será pai pela Primavera de
1999.
Para poder dedicar mais tempo à família naquele
que se avizinharia como o ano mais exigente da sua vida, empreendendo um
desafio verdadeiramente novo, Camilo faz anunciar que em 1999 o público poderia
contar apenas com quatro espectáculos ao vivo – um por trimestre, primeiro nos
Açores, segundo na Madeira, terceiro no Porto e o último, no fim do ano, em
Lisboa. Para promover estes espectáculos, foi lançada a primeira compilação da
sua carreira – Verbos Tentadores,
onde estavam incluídos dois novos temas originais – Benção e Boas-Novas.
Neste ano, no dia do seu aniversário, anuncia a
publicação em Maio seguinte de 1975/1998
- Antologia Poética de Camilo Alberto Reis, com uma selecção de textos
antigos que considerou mais relevantes e pertinentes.
Na madrugada de 13 de Maio nasce o primeiro filho
de Camilo, que recebe o nome de Salvador.
Dada a forte procura de bilhetes para os quatro
espectáculos exclusivos, Camilo concede a abertura de uma segunda data em
Lisboa. Na véspera destes concertos, em entrevista exclusiva ao Horário de Noticioso, informa que o
resultado daquele ano de pousio quase total, resultara num processo criativo
bastante intenso, pelo que esperava a edição de um álbum duplo de originais até
ao fim do ano 2000.
Com efeito, no início de Outubro de 2000 chega
às lojas duplo álbum Tentação – Salvação, que é bastante aclamado pela crítica,
pois não só recupera, em parte, alguns traços do Rock n’Roll de outros tempos, como é também feita uma nova leitura
sobre algumas sonoridades tradicionais, integrando-as nas canções mais
acústicas.
Em 2002 Resolve empreender numa digressão de
comemoração de vinte anos de carreira, culminando em Outubro num grande
concerto na Arena Atlântica, onde
foram convidados todos os elementos dos Ruídos
Verbais, mas onde contou também com a participação de uma Big Band, espectáculo que foi gravado
para posterior edição em álbum ao vivo.
O áudio do concerto dos 20 anos chegou às lojas
em Maio de 2003, CAR – 20 Anos ao Vivo,
tendo atingido em quinze dias a marca de dupla platina. Este ano é contudo
manchado pelo acentuar de rumores já com alguns anos, de que Camilo se teria
envolvido em diversas ocasiões com algumas admiradoras, o que rende imensa
especulação e escrutínio pela imprensa. Apesar de alguma tensão, o casamento
resiste às dificuldades.
Salvação
Arrebatadora, álbum que incluí o novo
single Equimose Amorosa de Esquimó,
estreia em Janeiro de 2005. Ainda neste mesmo ano, Camilo publica o seu
primeiro livro de contos – Impressos
Soltos, sob o pseudónimo de Joaquim
Pena. É na sequência desta publicação que começa a trocar correspondência
com Homero de Vaz Pessoa.
Até esta altura a gestão de carreira e
agenciamento foram geridos quase exclusivamente pelo próprio Camilo, o que cada
vez mais o desgasta. Em 2006 chega a acordo com Patrícia Arruda, que passa a partir deste ano a encarregar-se das
questões burocráticas e logísticas, libertando Camilo para se focar totalmente
na criação artística e na família.
Arrebatamento Doloroso e a Dor da Lucidez
são os originais que lhe sucedem, nos anos de 2007 e 2010, respectivamente, com
digressões sempre bastante longas e lotadas.
Em 2012 Camilo cumpre trinta anos de carreira
musical, que pretende assinalar com um novo espectáculo na Arena Atlântica,
desta vez com a participação da Banda Filarmónica de Moimenta da Beira e Homero
de Vaz Pessoa, como músico e cantor convidado. O concerto que inicialmente
estava programado para 15 de Setembro, foi adiado por motivo de doença de
Camilo, sendo então realizado a 22 de Dezembro, quatro dias após Leonor voltar
a dar à luz, desta vez um par de gémeos – Pedro e Matilde.
Cumprindo ano e meio de pausa para dedicar a
família, muito também por imposição de Leonor, Camilo volta em pleno à estrada
apenas no verão de 2014.
Em 2015, é lançado o álbum Lúcida Paixão, que só virá a ser sucedido em 2018 por Paixão Inocente, onde convida pela
primeira vez Diniz Oliveira de Campos, jovem revelação, a participar nas guitarras e a declamar alguns textos originais.
Em Setembro de 2019 é lançado o segundo livro
de contos, também com o pseudónimo de Joaquim Pena – Estórias com Fim.
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