Diniz
acorda hoje como sempre - pesado e cansado de mais uma noite mal dormida e cheia
de sonhos estranhos e maus, recalques, arrependimentos e desejos frustrados.
Olheiras
deitam sobre as bochechas.
De
desespero e males de amor mal esquecidos, vive mal este coração; mas um mal de
rosto jovem e alma velha.
Não
que tudo seja breu nesta realidade que Diniz abraça no vulgo, que seria até caso
de estudo para o mais temperado dos psiquiatras, fosse o caso deste nosso amigo
alguma vez ter sido ou permitido ser observado e tratado. Há contrapartidas
vantajosas.
É
portanto de grande utilidade esta realidade que, a par desta aliteração, que compreensivelmente
vos causará admirabilidade, podendo até, posteriormente, consoante vossa
disponibilidade, propor-se a prazerosa adjectividade sobre a insanidade e
irresponsabilidade que relatarei eu já nas próximas linhas, previsivelmente
recheadas de uma jogralidade a que agora eu me proponho, procurando desafiar a
vossa irritabilidade.
Acontece
que dos primeiros estilhaços de seu coração tiveram origem as primeiras letras
e notas, versos e melodias, harmonias e epifanias artísticas de Diniz, o
Infante Trovador Ostracizado da Capital.
Fosse
ou não por este acaso, ou por todas as outras mágoas similares que se lhe seguiram,
sempre que sístoles e diástoles se lhe recusaram à labuta, recusando irrigar
toda e cada uma das extremidades suas, (o que, caso o sentido destas palavras
fosse literal e não figurativo, certamente explicaria de forma muito mais
eficaz e coerente os acontecimentos que vos procuro agora transmitir após este
breve intervalo, de parêntesis dentro de um comentário lateral); sempre sentira
Diniz um pico de humores, torpores, euforias e rancores que, como a noite, lhe
tornara aguçados, vis e felinos os sentidos, também frios cruéis, ideias
variadas inspirações, enfim, criatividades para ser um pouco mais ou menos
sucinto, que isto já se sabe nos dias de hoje - as iliteracias e analfabetismos
funcionais exigem todo um reforço de ideias idealizadas que vêm da cabeça,
sendo necessário recorrer a vários pleonasmos, inúteis e repetitivos (lá está),
assim como frases auto-explicativas de coisas que em tempos idosos de há meia
dúzia de anos, não mais seriam que indício de promoção activa de nescianismo ou
pura inépcia de uma das partes do discurso, mas não mais hoje, não se vá o sentido
perder entre fuscas de moralistas, chinadas de beatificação do verbo e catataus
de passivo-agressividade digital; destarte, acabei de ganhar uma aposta aos que
declaram o meu pouco préstimo, ousando afirmar que não conseguiria prosar em
verso, incluindo neologismos e uma Saramagaiada
pelo meio de um conto funesto.
Voltando
ao nosso triste Diniz, a conclusão a que este chegou em tempos pela mão de suas
sombras pejadas pelos pontinhos de luz que são sua obra: teria de se resignar e
abraçar a dor como irmã e amiga, por amor à Arte, à sua arte. É a dor sua desbloqueadora
e fonte, permitindo-lhe ser honesto e intenso, a sua verdade intelectual e
emocional, agora expiados para telas e letras, imagens e melodias. Acredita não
ter hoje ter direito a ser feliz, se sua arte procura afinar, pois que fraca
autoridade moral teria, não podendo assim produzir as suas obras com verdade de
“v grande”; ora espera assim, quase sempre secretamente, que todos os seus
novos grandes amores de sua vida se tornem rapidamente libertinas devassas e
insensíveis. O coração partido é assim o combustível que o alimenta (desta vez,
figurativa e literalmente).
A
liberdade poética era o cárcere da sua felicidade.
É
a razão pela qual hoje, aprendeu a amar as suas dores, desfruta cada segundo enquanto
trapo emocional, antevendo horas de prazer, transformando aquelas lágrimas,
certamente rubras, a vomição da alma, cuspindo as entranhas a cada novo
vocábulo, movimento ou nota. A sua verdade é agora só uma:
“-Ser
artista é ser um profissional do sofrimento”.
É
assim o sofrimento o seu dever ético e moral, como uma espécie de doença
profissional, mesmo como um estágio profissional interminável, como aqueles a
que se destinam eternamente as jovens promessas à experiência. É o pacto que tem
com o grande público – o seu Eu poético
deveria sempre, na dúvida, ser favorecido em detrimento do seu Eu pessoal e intransmissível, invertendo
a sua relação de subserviência, ou pelo menos é este o entendimento de um primo
distante que é agora coach, um
parecer de autoridade elevada nos dias que correm.
O
nosso Trovador se convence agora diariamente que tem controlo sobre todo este
processo, ao contrário das suas primeiras crises adolescentes que, reconhece
agora, foram desprovidas de controlo, tornando-o num ser errante e vagamente
presente na realidade dos restantes mortais. É hoje ele quem conduz e manipula
os seus estados de alma, chega a se convencer muitas vezes inclusive, que manipula
e sabota propositadamente suas relações, sempre que sente sua fonte secar uma
vez mais. Não admite por isso hoje as letargias irascíveis que o assombraram em
idos anos, entre seus altos e baixos, e conduziam à inércia mais impotente. Mas
deleita-se hoje com aqueles estados depressivos e dissociativos que lhe roubam parcialmente
a capacidade de uma comunicação verbal mas não escrita, se apraz com eles agora,
se abarcando a uma produção febril e obsessiva – horas, dias – semanas! - Em
que sono e refeições viriam somente em superlativo biológico.
É
no entanto paradoxal que se recuse ainda hoje a admitir que gosta de não ser
feliz – pois se gosta de se sentir miserável, um ser destroçado e infeliz seria
algo que o compraz, realizando-o. Nada podia ser pior.
Não
pode consentir Ser-se em tão bons sentimentos. seria compreensivelmente,
contraproducente.
Já
me canso de tantos advérbios de modo. Adiante.
Apela
por isso a toda a inércia latente do seu frágil corpo, esta igual à qualquer
outro, todos os dias, de forma irremediável e inevitável, à infelicidade –
quase como um caminho fastidioso e diário para um escritório enfadonho, retido
por um trânsito mais aperreador ainda - é esta a sua demanda, para gáudio de
uns, horror de outros, todos que se lhe abeiram. Não o demove isto,
evidentemente, da sua obsessão pela miséria emocional, muito pelo contrário! –
Jubila prazenteiro com a incompreensão alheia, chafurdando em autocomiseração
adoçada pela cadência dos fonemas que o assaltam, ousando assim crer que faz
justiça aos grandes poetas e artistas de antanho:
“ – Se me fazem feliz dar-me-ão um
grande desgosto. “
Podemos
nós pensar: esta luta, infindável até ver, todos os dias o assalta e pode evidenciar
um combate com traços dramáticos - os seus dois “eu’s” (talvez os três?) num combate tão eterno e épico como o de Hórus e Seth, mito muito engraçado que
no Egipto Antigo explicava a alternância entre dia e noite; deviam ser bons
tipos pois gostavam de gatos; mas não pode tudo isto ser mais desinteressante e
enfadonho a qualquer observador: pontualmente apenas Diniz perdia o controlo e
exteriorizava suas emoções; em todo o restante tempo quando não estava a
criando, se comportava como uma concha vazia e olhos ausentes.
Todos
os dias enquanto este pastelão de alma temperamental acorda, bebe os seus chás primeiro,
alonga o corpo e toma por fim o seu pequeno-almoço, ruminando-o, e pensa em si,
no seu estado e sua arte - é evidente que se encontra num ciclo complicado de
quebrar -Tão miserável como cómodo. Mudança exige outro tipo de coragem: uma
ousadia que, suspeita, não traz consigo em todo aquele excesso de sentimentos, formação
e carácter.
Respirava
agora fundo.
Pela
cortina passam recortes de luz amarelada e quente que acariciam aquele rosto
com barba de três dias.
Um
sorriso triste e melancólico incomoda o rosto ainda hirto do sono, parecia
feito de gesso.
Pensa
em tudo isto e em nada.
Sentado
naquela sala desarrumada, os olhos vítreos revelam que uma viagem muito grande
acontecia ali atrás.
Agitando
a cabeça como que a afastar uma mosca incómoda: -Intimamente Diniz sabe, não
desapareceu ainda o seu sonho infantil - uma felicidade plena e livre, amor completo
e eterno; desconfia que este é provavelmente o último traço reminiscente de uma
inocência e ingenuidade que julga agora perdida há muito.
Só
alguém muito especial, a existir, será capaz de o resgatar daquela vida,
quebrando o ciclo, convertendo-o aqueles processos internos. Duvida hoje que
essa pessoa exista. Tampouco acha que seja justo para alguém que não ele ter
aquela ingrata tarefa.
Está
hoje já certo de que até ao fim dos seus dias será um D. Quixote lusófono; que
cantará para moinhos a quem amará como amara o de Cervantes à sua doce Dulcineia,
no entanto mesmo os moinhos inevitavelmente lhe quebrarão o coração, trocarão também
sempre por homens mais abastados e dados a prazeres mais efémeros e profanos.
De
certa forma não se importava demasiado em procurar e experimentar bastante por
uma Dulcineia sua, pudesse esta estar quem sabe, disfarçada de moinho;
espectativa era sempre a mesma: a próxima será a tal, ainda que o preço da demanda lhe custe uma alma em fiapos e
vários exames médicos, pelo sim pelo não, que as carnes sendo fracas, são ainda
fortes o suficiente para adormecer, fugazmente é certo, as dores da saudade de
outras almas desconhecidas; não se negam por isso boas carnes alheias, não só
porque ofensa cruel esta seria, também danos e recalques afrontaria a almas sensíveis
carentes; aplacando assim o remorso vê-se Diniz como um serviçal do bem-estar
social feminino, uma Misericórdia lírica, não procurando no entanto nenhum de
nós os dois ofender ou conflituar com a respeitosa e mui importante instituição
da Igreja, até porque justo não seria para nenhuma das partes.
O
Sol poisava agora por quase todo o seu corpo enchendo-o de conforto e um
sentimento sonolento de paz podre, onde apenas os pés frios ainda na sombra o
prendiam à Terra distante de seus pensamentos.
O
consumo da carne é também para Diniz limpeza do espírito e das vontades: se por
um lado o desejo é preciso qual inspiração divina à criação, não é menos
verdade que desejo longamente inibido tolda o discernimento – ao suprir a carência
das actividades anatómicas recreativas de auto e interdescoberta, o espírito e
a mente mais facilmente conseguem compreender o que realmente lhes interessa e
agir mais sábia e incisivamente, pois é sabido que é complicado ao homem cruzar
as pernas sem que se lhe aperte também o cérebro.
Sim,
tudo isto que vos conto é resultado de sinapses recorrentes e diárias do nosso
herói trovador e jogral ao despertar, por consequência ainda os lábios não
tocaram o primeiro café da manhã, já se encontra deprimido e cansado. Mas ele agora
sabe. Diniz deseja real e intimamente a felicidade, liberdade e amor correspondidos.
Mas
perderia, crê ele, o valor e dom da sua arte.
Na
sua mente isto passou-se. Seguiu-se vazio. Cãibra mental.
O
sol cobriu-se por uma pequena nuvem passageira, deixando um frio abrupto na
pele que até ali iluminava.
-“Nuvens
no me caminho? Apanho-as todas, um dia faço algodão doce para o Meu Coração…” –
disse baixinho, sorrindo amargamente, sentindo-se estúpido, imbecil.
Limpando
da barba o resto das migalhas do pequeno-almoço, deixa-se cair no sofá, em
menos de um minuto está a dormir, enquanto uma lágrima do olho esquerdo
escorria para o forro de pano deixando uma pequena marca que ninguém nunca
veria. Sabemo-lo nós pela minha condição omnisciente e meta-linguaruda e é
apenas um pormenor sórdido que achei por gosto indicar, sem quaisquer
consequências.
Haviam
decorrido anos intermináveis, sentia agora Diniz, entre a adolescência e a
agora sua provecta e cansada idade de vinte e cinco anos, que lhe concediam já
a licença para afirmar categoricamente e com propriedade vários assuntos, a
maioria dos quais de coração, mas não de cardiologia. Ignora porém, muito mais
do que gosta de admitir.
Sem
saber que a sua odisseia ainda nem a meio vai, sonha agora com uma mulher sem
rosto e um sorriso do mais belo que já viu, doce, alegre e calorosa, carinhosa
e companheira, um corpo fantástico e guloso sem forma, correndo ao seu lado por
dias solarengos em campos, florestas e praias.
Quando
acordar vai odiar-se por isso. É um sonho quase palpável; o desespero tomará
conta daquela mente sensível quando os pormenores se escorrerem da memória como
a água entre os dedos.
Babava
agora a camisa do pijama.
Escrito
assim, fica bonito.
Clopin
da Maia
31/08/2020




