quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Dignidade Vespertina

 Os boiões da dignidade vespertina, quando atacam nos matutinos sentidos, deflagram na cor dos dias, almareando a razão instituída. 

Pensem nisto. 

Namastê. Ou como diz o corrector: "Amazonas".


Homero de Vaz Pessoa

29/07/2018

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Vasilhame

 A Desgraça das rosas,

Outras floras que hoje receberão, 

Estão nos vasos, vasilhames que amanhã,

Nas faces vos rebentarão. 

Era mesmo com a tesoura da poda. 

Espinhos virtuosos. 

Pensem Nisto.

Namastê.


Homero de Vaz Pessoa

08/05/2019

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Viagem

 Cabeça encostada à janela

Céu  e mar azul

Pedra e carris, o chão..

Sentes confortável o sol a bater-te no rosto,

E admiras mais uma vez a magnifíciência do seu reflexo

Na água enrigada pelo vento, mas que ainda assim, caminha tranquila..

À tua imagem..

 

Desfrutas de um dos teus mais íntimos momentos,

apesar de ires numa carruagem que se encontra apinhada..

Viagem esta, rotineira, dia a dia sem destino,

mas que te é crucial:

rodeado de gente mas solitário,

a tua vida identificas metafóricamente, e pensas,

neste tempo morto e inútil, que é só teu

E pensas..

 

O ruído soporífero ritmado da trepidação,

 Um olhar distante

Fixo numa paisagem qualquer,

Em que os teus olhos se vidram,

E ves então, muito além

Do teu campo de visão..

Começou a tua viagem.

Sonhos, memórias, pensamentos, ilusões...

 

Tens pressa em chegar ao teu destino,

Mas escondes um secreto desejo,

O de que aquela viagem nunca mais acabe,

Pois quando isso acontecer,

Algo de mau e horrível, cataclísmico, sucederá..

O Fim do Mundo.. do Teu Mundo..

 

D.O.C

20/06/2008

domingo, 27 de setembro de 2020

Oopart

 As prendas da divina existência se convalescem pelas importâncias dos amanhãs passados. Seria um dia incerto, se o futuro se reflectisse nos passados de antanhos.  

Posso portanto concluir que a nossa presença, mais não é que a incoerência presente de uma incógnita passada, que reflecte o patético  inexistente futuro. Oopart's estranhos. Pleonasmos. 


Homero de Vaz Pessoa

19/11/2018

sábado, 26 de setembro de 2020

Geometria

Todos os lados do triângulo escaleno são iguais, porque a área da circunferência quadrada da pirâmide, é o dobro do raio que o parta.


Júan João Bernardo -  O Cavaleiro de Pau do Apocalipse

02/02/2020

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Fuga à Sombra

Um réstia d’oiro pairando no ar

Aproxima-se a hora sombria e tu vais lutar

E só então o sol ao céu vai voltar


Mais uma onda uma corrente 

Eu não me encontro no meio desta gente

Mas tu bem sabes que é o que te faz ir em frente 


Caminhando passo a passo

Pedra sobre pedra 

Vais olhando o espaço 

à procura da Terra 


Como uma onda no mar 

Aqui eu não quero ficar 

Mas há quem me queira agarrar

Eu não me vou ficar 


Salto a salto na corrente 

Vou jogando na maré 

Mas sei que no final das contas

Mesmo que eu caia vou ficar de pé 


E já um indício doirado pairando no ar 

Ando passo a passo, pedra a pedra me obrigo a respirar 

Mas eu neste palco continuo a avançar 

Muito mais do que andando

Eu não vou parar de saltar!! 


D.O.C.

18/10/2009


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Amor

 Amor é um amor. 

É um louvor ao Senhor, 

Infelizmente este estupor

Provoca muita dor.

Ai, flores da bicicleta ancestral

Piqueniques do campo queimado

São ventos do vosso agrado

Clip, tesoura e cola.


Homero de Vaz Pessoa 

19/09/2018

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte III

 

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.

O preço pela sua identidade era assim já marcado de chagas que com dificuldade cicatrizariam, mas a consciência da sua natureza superior à da maioria dos Homens, sempre o levaram a confiar que do jogo de superação entre ID, Ego e Super-Ego, ao qual assistiria indiferente qual mero espectador, para recolher as vitórias, despojos de uma qualquer batalha. Algo de expiador havia na mágoa, talvez um equilíbrio kármico a ser reposto quando cumprisse a sua missão.

Sorria por isso, enquanto pensava mais uma vez, amargamente, que era um perigoso estalinista para a direita, um fascista execrável para a esquerda – talvez fosse essa a verdadeira natureza de um hipster do século XXI. Ainda que pudesse por vezes ter sido um pouco cruel naquele amesquinhar dos familiares, sempre se considerara um “bom rebelde” a quem a própria família haveria de reconhecer os méritos e se orgulhar de ser ele um dos seus; até porque até àquele momento, sempre lhe constrangera e atormentara o peso daquele passado, enquanto em segredo escondia até dos seus recriminatórios pensamentos, algum orgulho pela sua distinta estirpe. Era um pecado que tinha dificuldade em esconder e do qual se tentava libertar, até porque também por ele, precisava de provar ao mundo que era muito mais do que aquilo que nasceu.  

Estava agora deitado de costas na areia, na zona de rebentação das ondas mais baixas. Procurava que os pensamentos, mesmo os soltos e desconexos, se juntassem num puzzle que lhe sugerisse algum significado latente.

Talvez por tudo isto, a rejeição dos autoritarismos e das pulsões monárquicas familiares, chocavam com a sua busca pela liberdade e autodeterminação, tornando-o uma fonte de contradições internas do que o seu sentido de lógica acredita ter, e por isso, tenta sempre colmatar; é hoje uma das personagens mais contraditórias que existe no panorama político-partidário, social, cultural e económico português.   

Era este personagem que, engolindo agora alguns pirulitos, surpreendido por uma onda maior da maré que subia, estava convencido do seu perfeito controlo sobre todos os elementos que regem a sua vida, e que em breve, estava apostado nisso, mudaria o curso da história e o futuro de um país, de uma civilização.  


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Carpe Diem Jagunço

 

Hakuna Matata: iletrado que se procura afirmar como não analfabeto, mas ainda não chegou a  Carpe Diem.

Carpe Diem: qualquer imbecil um pouco menos iletrado, não tem nada mais para dizer, procura justificar a sua conduta ou simples acefalite aguda.

Todos os outros (silêncios, frases feitas ou originais): bestas egoístas, petulantes, egocêntricas, pedantes, cínicas,  cabotinas, sobrancerias, arrogâncias, estupidez, má vontade e desprezo para todos os demais, pois o centro do mundo e da verdade só se encontra naquele metro quadrado de cidadania.

 

 

”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

03/04/2018

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Persianas, A Grande Fronteira

 A prova de que as pessoas sabem ser sérias e educadas, é quando sabem ser mal-educadas, néscias, grosseiras, impertinentes, inconvenientes, indecentes. 

Tudo isto na ausência dos lesados. Na sua presença são encantadoras. Gosto deste tipo de civilidade, ou mesmo urbanidade. 

As persianas são a última grande fronteira.


Homero de Vaz Pessoa

14/05/2019

domingo, 20 de setembro de 2020

O Sol Está Quente

 O Sol está quente. 

Mais quente é o chá que a língua sente. 

Dia novo, penso: "-Presente". 

Mas sinto tão, mas tão intensamente, 

Que penso magoar previamente, 

Ser uma simpatia obediente, 

Dessa estrela que nasce a Ocidente. 



Ah, porra! Escrivaninha.



”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

18/09/2018

sábado, 19 de setembro de 2020

Flôr-de-Lis Carente

 Os resquícios de Humanidade pendentes se desvanecem nas humildades dos parentes, flor-de-lis carentes. 

Bom dia. 

Namastê.


H.V.P.

23/07/2018

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Trovador Politicamente Correcto

 Ligo a guitarra

E o meu amp(e)

Logo fico pronto

Solitário trovador

Começo a berrar

As malhas que já sei de cor

Podem estar fartos

Mas eu não me vou calar

 

Há quem queira

Por-me em cima um autocarro

Há quem diga

Que eu só canto

Depois dum charro!

 

Mas não fumo!

Nem passo!

E estou assim!

Eu Não fumo

Nem bebo

Mas Sou assim!

 

Não são raros os gajos

Que precisem de se desinibir

Loucuras contidas

De quem apanhou a mulher a curtir

 

A beber um copo

Um enfardar um bom jantar

A saltarem-lhe para cima

E ela a suspirar

 

Mas não fumo

Nem passo!

E estou assim

Eu Não fumo

Nem bebo

Mas Sou assim!


 Júan João Bernardo - O Cavaleiro de Pau do Apocalipse

15/10/2008


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Loucuras

Vai vai vai vai

 

Estou em brasa

Estou sem casa

Corro pulo sem parar

Estou rir

Sempre a abrir

A cantar

A gritar

A berrar

 

Estou maluco, louco

(Louco)

Ando doido, doido

(louco)

Demente, mente,

(mente)

Estou a chegar!!!

(Ahhhh!!! )

 

Até podes pensar que eu sou o doido

Mas na verdade o louco és tu

Só alguém completamente doente

Vive adaptado numa sociedade demente!!

 

 

Olha a velhinha abandonada

Olha o papá desempregado

Olha o deficiente desamparado

Olha a criança esfomeada

 

Olha a população desalojada

Olha a cidade bombardeada

Olha-me as fachadas rebentadas

Olha para o verde incendiado

 

 

Mas

 

Estou maluco, louco

(Louco)

Ando doido, doido

(louco)

Demente, mente,

(mente)

Estou a chegar!!!

(Ahhhh!!! )

 

Olha os bichos esventrados

Aquelas espécies mutiladas

Tantas pessoas espancadas

Aquelas vidas aprisionadas

 

Olha-me as gentes condicionadas!

E Olha o Homem enganado

E Olha o Homem ludibriado

E Olha o Homem manipulado

Olha estamos todos ENGANADOS!

 

 

Estou maluco, louco

(Louco)

Ando doido, doido

(louco)

Demente, mente,

(mente)

Estou a chegar!!!

(Ahhhh!!! )

 

Estou em brasa

Estou sem casa

Corro pulo sem parar

Estou rir

Sempre a abrir

A cantar

A gritar

A berrar

 

 

Até podes pensar que eu sou o doido

Mas na verdade o louco és tu

Só alguém completamente doente

Vive adaptado numa sociedade demente!!

 

Diniz Oliveira de Campos

 25/04/2002

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Eutanásia

Eutanasie-se. É a única forma de resolver o problema dessas gentes que defendem a Eutanásia. Ainda que possa parecer uma derrota, é uma derrota estratégica. Uma vez eutanasiadas, essas vozes que se erguem agora, não mais reivindicarão o seu direito, e o dos outros, ao controlo sobre a sua morte.


H.V.P.

16/02/2020

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Profecia já Vencida

 Quando a insanidade é verbo corrente da esquerda à direita, a lei passa passa a ser insana.

 A maior vitória dos lunáticos facínoras, é sem dúvida conseguir fazer-nos acreditar que são tão normais como nós, vulgares loucos da existência fugaz.


13/09/2020

“Júan” João Bernardo, “O Cavaleiro de Pau do Apocalipse”

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Filarmónicas

Resta-me meditar e orar pelos estultos que se convencem que Banda Filarmónica, é formada por filatelistas que tocam gaita. 

O passado não perdoa tudo. 

Em branco, papeis; 
Crinas e sapatos.


H.V.P. 
13/09/2020

domingo, 13 de setembro de 2020

Estrelas

As estrelas são as poesias pueris dos pirilampos.

Caju e meio tostão.


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

15/01/2019

 

sábado, 12 de setembro de 2020

Chama de Gelo










Arde o fogo com vontade 

sedento fôlego e poder 
dançam chamas florindo, 
queimando,  rindo,
Fogo esse já um dia 
me ia destruindo 

Revolta um passado 

nunca esquecido 
lembrado, passado,
assumido, ferido 
Fantasmas nada queridos 
rostos perdidos, escondidos, fingidos

Doces palavras

feições amargas
nada guardam 
senão dor

dor sentida, cantada, privada, escusada, esquecida, afastada...


desprezo, abandono e dor, 

confesso por fim de forma suave
aquilo que até há segundos
queria gritar em plenos pulmões

Tudo isso em prosa

por uma voz não grossa 
respirada e sentida


Más lembranças, 

doces esperanças 
Daqui eu espero, 
Daqui desespero, 
Aqui me despeço 
Aqui vos acolho 
e não vocês.

Recordo agora as palavras de há pouco

que por pouco já delas me esquecia 
adormecidas anos, delírios e febres 
 A TI te agradeço por mas lembrares: 

EU QUERO! 



D.O.C.

12/09/2012

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Amanhã

 É sempre o Amanhã que canta.

Hoje acordei Amanhã. 

Mas ainda é hoje. O Amanhã escapou de novo. 

O Hoje continua monocórdico e o amanhã continua longe. 

O Hoje é aborrecido. Apesar de Ontem, jurar que Amanhã acordaria cedo. 

É uma bodega. 

Para não dizer que é uma merda, que é feio e deseducado. 

Pensem nisto. 

Namastê. 


Homero de Vaz Pessoa

13/09/2018

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte II

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.

O mundo iria mudar sob sua égide. Sabia que tinha de o fazer. Indubitável e inevitavelmente acabaria por o fazer.

O que o preocupava na verdade era as concessões que teria de fazer ao Sistema. Teria de sair daquela bolha e abraçar a comunicação de massas, falar para o povo, que estaria certamente sedento de informação e sabedoria, de alguém que pudessem admirar e que pudessem seguir – Ah! Como abominava os inglesismos abjectos, a epilepsia da comunicação e da imagem, a economia do tempo e da palavra! Era intolerável para si toda aquela conspurcação da sua amada língua materna, que sorrateiramente e através das gerações mais novas e despreparadas, que estava certo que incauta e inadvertidamente, contaminavam de anglos e francos vocábulos a fonia de Camões, agora já automaticamente como se de nativos termos se tratassem. Não havia volta, teria de vender a alma e prostituir o seu rosto, oferecer as suas palavras ao vento no caminho que escolhera de apelar às consciências que hoje eram órfãs da verdade.   

Olhou para trás. Mais da metade do caminho que fizera fora já apagado pelas ondas. Pensou ironicamente se seria aquela um bom exemplo do que a história lhe reservaria – Seria, à semelhança de tantos outros um nome de rodapé ou uma versão romanceada de si mesmo para quem o viesse a estudar? Quem o iria recordar? Historiadores certamente, mas e o povo, as pessoas, que tão importantes são para a construção de uma personagem no consciente colectivo…?

Pensou nas pessoas comuns.

Era já humilhante ter de se rebaixar a falar directamente para o povo iletrado, onde o analfabetismo funcional era pré-requisito para poder ingressar em qualquer mercado de trabalho. Teria de rebater ponto a ponto o discurso e propaganda dessa elite cultural e intelectual de esquerda, que monopolizavam toda a imprensa.

Deixou que o mar refrescasse os tornozelos e as barrigas das pernas. Baixou-se e apanhou um caço de água com as mãos, com que molhou a cara. Respirava fundo enquanto pensava em opiniões públicas e publicadas.  

Sabia que com as suas posições deveria ser catalogado de conservador reaccionário de direita, algo que rejeitava desde a juventude – não fora precisamente essa a génese da sua identidade, quando se rebelara com os trejeitos mui finíssimos e nobres da sua família patética, da qual muitos elementos guardavam ainda um orgulho bacoco por um passado de títulos nobiliárquicos e pertenças vastíssimas de terra e bens? Estava certo que ainda hoje tinha razão a demarcar-se ainda novo daquelas infindáveis reminiscências familiares sobre a cor azul do sangue e antepassados muito distantes (séculos!) e nobres! Não impusera um afastamento de valores e princípios quase que blasfemo em relação ao seu clã de origem? Via-se desde jovem como uma voz independente e livre, que denuncia o monopólio do sistema por grupos minoritários e permanentemente beneficiados, que desprezam a meritocracia e a capacidade individual de um ser humano de reinventar e superar.

Pousava agora a mochila e começava a despir a blusa de linho – a água estava demasiado boa para não mergulhar. Sempre sentira um enorme prazer e libertação em contacto com a areia e a água do mar. Nada era mais simples e verdadeiro que aquilo. Sorriu desdenhosamente – Era óbvio que qualquer geólogo, meteorologista ou especialista em oceanos e vida marinha discordaria desta afirmação, - como era chato e impossível tentar libertar a mente, a constatação permanente do quão pouco sabia sobre cada coisa tinha o dom de o irritar. Tão pouco saber apesar de tanto ler, tanto estudar, fazia com que se sentisse limitado, falível e mortal – um humano. Ironizou consigo mais uma vez – Se há tanto imbecil que percebe claramente muito menos do que eu dos assuntos de que fala e com os quais tem a presunção de produzir conteúdos que desinformam mais do que informam, certamente que o seu trabalho seria menos condenável, mais útil e preciso do que os restantes. 

Aproximou-se do mar, onde rebentavam já as ondas mais pequenas daquela zona da costa.

Retomou a linha de pensamento anterior - Sim, o sucesso de cada indivíduo dependia exclusivamente de si, não lhe fazia por isso sentido que os seus familiares se comportassem como se fossem membros da família real, quando o maior feito de todos eles teria sido o desbaratar do património da família ao longo de gerações, sem feitos, sem mérito, sem contribuição alguma para o país, para as pessoas ou para o crescimento intelectual e humano. Havia apenas uma infinidade de páginas em branco na história da família, uma ausência escandalosa da sua participação na história como qualquer livro poderia assertar; “Aristocracia falida e néscia, condenada ao olvido” - As imperdoáveis palavras que com tanto rancor atirara aos progenitores no início da sua idade homem, mas que até hoje lhe ecoavam na memória, tão reais como quando foram proferidas, mas dolorosas muito mais agora e a cada dia, definitivamente votado ao congraçamento possível com florestas nuas, de ciprestes.

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.



Clopin da Maia

07/08/2020

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Pradarias

 As Pradarias da Existência nem sempre procuram a Presença. 

Quando a competência caminha, largos passos contamina. 

Ah, essa é a Permanência da Essência!

Pensem Nisto. 

Namastê.


H.V.P.

19/09/2018

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O Tempo

São 3.10 da manhã... e 11... que é isto?!!! Afinal ainda estou de férias!!! Porque raio tenho de estar a olhar para o relógio e a guiar-me por horários?!!! 

Pensando bem... O que é um horário?!! O que significa serem neste momento já 3.12 da manhã?!... Isto vai tudo dar a uma mesma questão: O que é o Tempo?!! Eu acho… que o gajo que criou o Tempo... não devia ter mesmo mais nada para fazer!! Deduzo, portanto, que o gajo que se lembrou de criar o Tempo, devia ter mesmo muito tempo livre! O que me dá a certeza de que foi há tanto tempo, que ainda não havia televisão nem game boy!!

Porque raio esse bendito homem (ou mulher, não pretendo discriminar ninguém) havia de ter criado essa noção do... Tempo... que só nos viria a dar problemas? Senão vejamos: é por culpa do Tempo que chegamos atrasados à escola ou ao emprego; é por culpa do Tempo que ficamos plantados horas à espera que as donzelas se resolvam acabar de arranjar, ou então, é na mesma por causa deste, que elas ficam a cuspir cobras e lagartos quando nos atrasamos e as deixamos plantadas em algum café ou restaurante; é por culpa do mesmo e malvado Tempo que deitamos a nossa vida fora, porque simplesmente não há Tempo para concretizar tudo o que ambicionamos, por isso somos sempre obrigados a escolher um dos múltiplos caminhos, escolha essa que nos vai martelar com a dúvida e a incerteza até ao fim da vida.






E depois este gajo (o tal de Tempo), é inconstante! Mesmo quando temos o tempo todo contado para chegar seja onde for, ele decide chover-nos em cima, e lá somos nós obrigados a voltar a casa trocar de roupa para não apanhar uma pneumonia (o que pode sem dúvida tirar-nos algum tempo!)!! Como se tudo isto não fosse suficientemente grave, ainda decidiram gozar connosco, comercializando e modernizando o próprio Tempo! Ele é relógios digitais, é relógios no computador, relógios nos telemóveis, e por fim, os radio-despertadores!! 
Estes então, são absolutamente diabólicos! Como se já não fosse o suficiente as pessoas acordarem cedo o ano inteiro para andarem a arrastar-se quer seja para a escola ou para o trabalho, ainda têm de acordar ao som de Shakira's, Nickleback, André's Sardet's ou Nelly's Furtados... é deprimente! É estarem a gozar com quem trabalha!! Quem teve a feliz e inteligente ideia de criar o tempo, podia ter feito os dias com 15 horas, poupando-nos assim as outras 9 horas diárias de publicidade com que gramamos na televisão! 

Ao menos o gajo (ou gaja!!) que criou o Tempo, podia ter criado o Tempo, 10 minutos mais cedo, evitava assim os constantes atrasos no trabalho e nas aulas… não é mal pensado e não custava assim tanto... mas acho que ele nunca foi muito de cumprir horários... e atrasou-se!


para quem quiser saber...

Tempo
do Lat. tempus
s. m.,
duração limitada, por oposição à ideia de eternidade;
período;
época;
sucessão de anos, dias, horas, momentos, que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro;
meio indefinido onde se desenrolam, irreversivelmente, as existências na sua mutação, os acontecimentos e os fenómenos na sua sucessão;
certo período determinado em que decorre um facto ou vive uma personagem;
oportunidade;
ensejo;
estação ou ocasião própria;
prazo;
duração;
estado atmosférico;
Mús.,
cada uma das partes completas de uma peça musical, em que o andamento muda;
duração de cada parte do compasso;
Gram.,
flexão indicativa do momento a que se refere o estado ou a acção dos verbos.
loc. adv.,
a -: oportunamente, em boa hora;
a dois -s, a quatro -s: ciclos de funcionamento de um motor.

”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

06/04/2007

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Para o meu caro Diniz,

Dr. Diniz,

Bem sei que o seu escrito é já bastante antigo. Mas pelo tempo que acompanho suas irascibilidades quando de males de amor, sei que o que lhe direi agora poderia certamente ter dito à data da autoria de sua última escritura:

Também fiquei muito dorido com o acto falhado que foi o meu casamento e não tento fazer disso notícia, nem construo com isso pretensões a ser artista. Aliás, sou espoliado da minha alma e das minhas economias. E se fiquei realmente dorido. No coração. Rameiras ordinárias.

Agora a sério puto, tem juízo, já ninguém aguenta tanto melodrama! 


PS: Mas é bem feito! Assim aprenderás por certo, que nem todo o buraco escuro é cofre seguro!


H.V.P

07/09/2020

domingo, 6 de setembro de 2020

Nada a Perder

 Avanço na noite

Sem dormir

Vem aí mais um dia

E eu vou sentir

 

Chegou a hora de fazer

Chegou o momento de provar

Dia após dia a força que me agredia

No meu ser faz-me acreditar

 

Contrastando no meu estar

O meu bem

O meu sentir

É a hora de Lutar

A hora de seguir

 

E levanto a cabeça

Olhos nos olhos vou-me erguer

De ti já nada receio

Não tenho nada a perder

 

D.O.C

03/03/2012

sábado, 5 de setembro de 2020

Homilias

Homilias profanas desenterram o pão do solo alheio. 

Desgraçado do que não ferra dente em calhau ordinário. Morre de Fome. 

Ventoinhas.

Pensem nisto. 

Namastê.


H.V.P

25/09/2018

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

S’oanetações



- Olha, esse coração aí, no chão,

Sentado e esquecido, sujo, puído;

- Espero que não nos tenha ouvido!

- Feliz foi um dia: jaz agora, no alcatrão.

 

- Sim, esse mesmo aí:

Invisível sentado, perdido;

- Sim sim, previsível Derrotado,

Amargurado, esquecido.

 

- Já uma vez existiu, vigoroso, sorrindo

E forte, pulsante, marcante, charmoso:

Apaixonado apaixonante e lindo!

 

- Ainda hoje apaixonaria, belo,

Caprichoso, sonhador e bondoso

Amante dedicado e orgulhoso



“-Sim, este coração aqui, enegrecido,

Amarrotado, pesado, e à vista – agastado!

Chaga viva amolgada, inflamada, cativa

Certamente, mas desconfio, esfomeada”

 

Almas mecânicas compadecidas,

Abrandam pouco, intrigando,

Uma menos absorvida, arrisca, embevecida:

“- Que vos estais apoquentando?”

 

O por hoje esmagado, sente e diz:

“-Nada mais ao mundo, Excelência,

Tenho por dar “

 

“-Tudo há para me faltar

Seja maldita a minha existência,

Tão pior por hoje acordar sem par!”  


 

- Sim, mesmo aquele ali:

O coração amarrotado, perdido

Pobre pálido, vencido

Amargurado, pouco acarido

 

- Se confunde ele agora

Com os sulcos do chão

Pesada pedra escura dura, a quem,

Lhe é negada, Condição

 

- “Descurado agora está

Pois de muito se carece

Mesmo de leis e preces.”

 

Brotam lágrimas e rubras fendas,

E pragas, várias, total abjuração

“-Triste ver, estropiada obstinação.”


 

“-Regressemos, no entanto, e já,

Ao destino, que deixámos folgar,

Por pouco, é certo, que o ócio

Por drama alheio, nunca mais há

 

Do que convém: pouca saúde dá,

E é de outros, negócio; mais: nossos

Não são, os antanhos saudosos fervores,

Carências, maus amores, pesarosos”

 

- Artistas pindéricos, pirosos!

Felizmente, com a vida que levam

Não chegam à reforma para ser idosos!

 

- Estas gentes procuram atenção

Toda a que tinha, dei-lha toda

Inadvertidamente, de supetão.

 

 

(guarda a chave do carro no bolso e come o seu pastel de nata)

 

Diniz Oliveira de Campos

01/09/2020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Longa Vida à Prostituição

 Como acredito na mudança, no progresso e na evolução do pensamento, decidi tornar público o seguinte: Tornei-me um acérrimo defensor e entusiasta da Prostituição, em especial das suas (e seus, não me vão acusar de misoginia) profissionais.  

São provavelmente os únicos profissionais que se deitam com vontade de trabalhar. 

Um modelo a seguir pela nossa nossa elite empresarial e empreendedora.


H.V.P.

07/02/2020

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Salvé

Cavalos atmosféricos

Lambujinhas da montanha

Tigres de aviário

Rebanho de lobos pardos:

A mentira nada mais é que uma excelente história que alguém resolveu estragar com a verdade.

Decassílabos sibilantes.

Salvé, salvé!



”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

14/04/2019


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Tijolo

Esse pedaço de barro só, cozido

Quebrado, acabado esquecido 

Foi já, porção de tudo

Hoje perdida esperança, do nada 

Tijolo, só sumido


Bastaria então sonhar...


Aquela promessa um dia certa 

Por diversas letargias se perdeu 

Às perguntas díspares o tempo, temo 

Espaço má fortuna lhe rendeu 


Resta então sonhar.


Como às névoas do nada se forçou 

Obrigado à não existência, não ser 

Amarra hedionda, o estancou

Foi muito mais prova, que poder 


Poderia então sonhar;


Nada foi na verdade, de facto, 

Esquecido bloco de barro, perdido, 

Estilhaçado, no acaso e fortunas não gentis, 

Sem pedreiro, Fado forte, mau 

Sem cuidado, falso pedido sentido,

Que a toscos apelos, não acudis 


Deve então sonhar.


Lhe bastaria a Ele porém, 

Papel discreto neste Monstro Sacro-Sinistro, 

Cruel, sem sentido, mas ajudar poderia a erguer

Não fosse que Pedreiros e ministros 

Cedo o destinaram, a não Ser 


Satisfaz então sonhar... 


Pode então agora sonhar,

Mármore, talvez tornar...

Ganharia relevos, frescos, 

Talvez sair, viajar... 

Vultos maiores edificar 


Obriga-se agora sonhar... 


Esse pedaço de barro só, cozido

Aquela promessa um dia certa, 

Obrigada à não existência, não ser; 

Lhe bastaria a Ele porém, 

Então sonhar: 

Vultos maiores edificar. 


Vamos então, sonhar.


Diniz Oliveira de Campos 

12/08/2012


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Coração pela Arte

 

Diniz acorda hoje como sempre - pesado e cansado de mais uma noite mal dormida e cheia de sonhos estranhos e maus, recalques, arrependimentos e desejos frustrados.

Olheiras deitam sobre as bochechas.

De desespero e males de amor mal esquecidos, vive mal este coração; mas um mal de rosto jovem e alma velha.

Não que tudo seja breu nesta realidade que Diniz abraça no vulgo, que seria até caso de estudo para o mais temperado dos psiquiatras, fosse o caso deste nosso amigo alguma vez ter sido ou permitido ser observado e tratado. Há contrapartidas vantajosas.

É portanto de grande utilidade esta realidade que, a par desta aliteração, que compreensivelmente vos causará admirabilidade, podendo até, posteriormente, consoante vossa disponibilidade, propor-se a prazerosa adjectividade sobre a insanidade e irresponsabilidade que relatarei eu já nas próximas linhas, previsivelmente recheadas de uma jogralidade a que agora eu me proponho, procurando desafiar a vossa irritabilidade. 

Acontece que dos primeiros estilhaços de seu coração tiveram origem as primeiras letras e notas, versos e melodias, harmonias e epifanias artísticas de Diniz, o Infante Trovador Ostracizado da Capital.

Fosse ou não por este acaso, ou por todas as outras mágoas similares que se lhe seguiram, sempre que sístoles e diástoles se lhe recusaram à labuta, recusando irrigar toda e cada uma das extremidades suas, (o que, caso o sentido destas palavras fosse literal e não figurativo, certamente explicaria de forma muito mais eficaz e coerente os acontecimentos que vos procuro agora transmitir após este breve intervalo, de parêntesis dentro de um comentário lateral); sempre sentira Diniz um pico de humores, torpores, euforias e rancores que, como a noite, lhe tornara aguçados, vis e felinos os sentidos, também frios cruéis, ideias variadas inspirações, enfim, criatividades para ser um pouco mais ou menos sucinto, que isto já se sabe nos dias de hoje - as iliteracias e analfabetismos funcionais exigem todo um reforço de ideias idealizadas que vêm da cabeça, sendo necessário recorrer a vários pleonasmos, inúteis e repetitivos (lá está), assim como frases auto-explicativas de coisas que em tempos idosos de há meia dúzia de anos, não mais seriam que indício de promoção activa de nescianismo ou pura inépcia de uma das partes do discurso, mas não mais hoje, não se vá o sentido perder entre fuscas de moralistas, chinadas de beatificação do verbo e catataus de passivo-agressividade digital; destarte, acabei de ganhar uma aposta aos que declaram o meu pouco préstimo, ousando afirmar que não conseguiria prosar em verso, incluindo neologismos e uma Saramagaiada pelo meio de um conto funesto.

Voltando ao nosso triste Diniz, a conclusão a que este chegou em tempos pela mão de suas sombras pejadas pelos pontinhos de luz que são sua obra: teria de se resignar e abraçar a dor como irmã e amiga, por amor à Arte, à sua arte. É a dor sua desbloqueadora e fonte, permitindo-lhe ser honesto e intenso, a sua verdade intelectual e emocional, agora expiados para telas e letras, imagens e melodias. Acredita não ter hoje ter direito a ser feliz, se sua arte procura afinar, pois que fraca autoridade moral teria, não podendo assim produzir as suas obras com verdade de “v grande”; ora espera assim, quase sempre secretamente, que todos os seus novos grandes amores de sua vida se tornem rapidamente libertinas devassas e insensíveis. O coração partido é assim o combustível que o alimenta (desta vez, figurativa e literalmente).

A liberdade poética era o cárcere da sua felicidade.

É a razão pela qual hoje, aprendeu a amar as suas dores, desfruta cada segundo enquanto trapo emocional, antevendo horas de prazer, transformando aquelas lágrimas, certamente rubras, a vomição da alma, cuspindo as entranhas a cada novo vocábulo, movimento ou nota. A sua verdade é agora só uma:

“-Ser artista é ser um profissional do sofrimento”.

É assim o sofrimento o seu dever ético e moral, como uma espécie de doença profissional, mesmo como um estágio profissional interminável, como aqueles a que se destinam eternamente as jovens promessas à experiência. É o pacto que tem com o grande público – o seu Eu poético deveria sempre, na dúvida, ser favorecido em detrimento do seu Eu pessoal e intransmissível, invertendo a sua relação de subserviência, ou pelo menos é este o entendimento de um primo distante que é agora coach, um parecer de autoridade elevada nos dias que correm.   

O nosso Trovador se convence agora diariamente que tem controlo sobre todo este processo, ao contrário das suas primeiras crises adolescentes que, reconhece agora, foram desprovidas de controlo, tornando-o num ser errante e vagamente presente na realidade dos restantes mortais. É hoje ele quem conduz e manipula os seus estados de alma, chega a se convencer muitas vezes inclusive, que manipula e sabota propositadamente suas relações, sempre que sente sua fonte secar uma vez mais. Não admite por isso hoje as letargias irascíveis que o assombraram em idos anos, entre seus altos e baixos, e conduziam à inércia mais impotente. Mas deleita-se hoje com aqueles estados depressivos e dissociativos que lhe roubam parcialmente a capacidade de uma comunicação verbal mas não escrita, se apraz com eles agora, se abarcando a uma produção febril e obsessiva – horas, dias – semanas! - Em que sono e refeições viriam somente em superlativo biológico.

É no entanto paradoxal que se recuse ainda hoje a admitir que gosta de não ser feliz – pois se gosta de se sentir miserável, um ser destroçado e infeliz seria algo que o compraz, realizando-o. Nada podia ser pior.

Não pode consentir Ser-se em tão bons sentimentos. seria compreensivelmente, contraproducente.

Já me canso de tantos advérbios de modo. Adiante.

Apela por isso a toda a inércia latente do seu frágil corpo, esta igual à qualquer outro, todos os dias, de forma irremediável e inevitável, à infelicidade – quase como um caminho fastidioso e diário para um escritório enfadonho, retido por um trânsito mais aperreador ainda - é esta a sua demanda, para gáudio de uns, horror de outros, todos que se lhe abeiram. Não o demove isto, evidentemente, da sua obsessão pela miséria emocional, muito pelo contrário! – Jubila prazenteiro com a incompreensão alheia, chafurdando em autocomiseração adoçada pela cadência dos fonemas que o assaltam, ousando assim crer que faz justiça aos grandes poetas e artistas de antanho:

“ – Se me fazem feliz dar-me-ão um grande desgosto. “

Podemos nós pensar: esta luta, infindável até ver, todos os dias o assalta e pode evidenciar um combate com traços dramáticos - os seus dois “eu’s” (talvez os três?) num combate tão eterno e épico como o de Hórus e Seth, mito muito engraçado que no Egipto Antigo explicava a alternância entre dia e noite; deviam ser bons tipos pois gostavam de gatos; mas não pode tudo isto ser mais desinteressante e enfadonho a qualquer observador: pontualmente apenas Diniz perdia o controlo e exteriorizava suas emoções; em todo o restante tempo quando não estava a criando, se comportava como uma concha vazia e olhos ausentes.

Todos os dias enquanto este pastelão de alma temperamental acorda, bebe os seus chás primeiro, alonga o corpo e toma por fim o seu pequeno-almoço, ruminando-o, e pensa em si, no seu estado e sua arte - é evidente que se encontra num ciclo complicado de quebrar -Tão miserável como cómodo. Mudança exige outro tipo de coragem: uma ousadia que, suspeita, não traz consigo em todo aquele excesso de sentimentos, formação e carácter.

Respirava agora fundo.

Pela cortina passam recortes de luz amarelada e quente que acariciam aquele rosto com barba de três dias.

Um sorriso triste e melancólico incomoda o rosto ainda hirto do sono, parecia feito de gesso.

Pensa em tudo isto e em nada.

Sentado naquela sala desarrumada, os olhos vítreos revelam que uma viagem muito grande acontecia ali atrás.

Agitando a cabeça como que a afastar uma mosca incómoda: -Intimamente Diniz sabe, não desapareceu ainda o seu sonho infantil - uma felicidade plena e livre, amor completo e eterno; desconfia que este é provavelmente o último traço reminiscente de uma inocência e ingenuidade que julga agora perdida há muito.

Só alguém muito especial, a existir, será capaz de o resgatar daquela vida, quebrando o ciclo, convertendo-o aqueles processos internos. Duvida hoje que essa pessoa exista. Tampouco acha que seja justo para alguém que não ele ter aquela ingrata tarefa.

Está hoje já certo de que até ao fim dos seus dias será um D. Quixote lusófono; que cantará para moinhos a quem amará como amara o de Cervantes à sua doce Dulcineia, no entanto mesmo os moinhos inevitavelmente lhe quebrarão o coração, trocarão também sempre por homens mais abastados e dados a prazeres mais efémeros e profanos.

De certa forma não se importava demasiado em procurar e experimentar bastante por uma Dulcineia sua, pudesse esta estar quem sabe, disfarçada de moinho; espectativa era sempre a mesma: a próxima será a tal, ainda que o preço da demanda lhe custe uma alma em fiapos e vários exames médicos, pelo sim pelo não, que as carnes sendo fracas, são ainda fortes o suficiente para adormecer, fugazmente é certo, as dores da saudade de outras almas desconhecidas; não se negam por isso boas carnes alheias, não só porque ofensa cruel esta seria, também danos e recalques afrontaria a almas sensíveis carentes; aplacando assim o remorso vê-se Diniz como um serviçal do bem-estar social feminino, uma Misericórdia lírica, não procurando no entanto nenhum de nós os dois ofender ou conflituar com a respeitosa e mui importante instituição da Igreja, até porque justo não seria para nenhuma das partes.

O Sol poisava agora por quase todo o seu corpo enchendo-o de conforto e um sentimento sonolento de paz podre, onde apenas os pés frios ainda na sombra o prendiam à Terra distante de seus pensamentos.

O consumo da carne é também para Diniz limpeza do espírito e das vontades: se por um lado o desejo é preciso qual inspiração divina à criação, não é menos verdade que desejo longamente inibido tolda o discernimento – ao suprir a carência das actividades anatómicas recreativas de auto e interdescoberta, o espírito e a mente mais facilmente conseguem compreender o que realmente lhes interessa e agir mais sábia e incisivamente, pois é sabido que é complicado ao homem cruzar as pernas sem que se lhe aperte também o cérebro. 

Sim, tudo isto que vos conto é resultado de sinapses recorrentes e diárias do nosso herói trovador e jogral ao despertar, por consequência ainda os lábios não tocaram o primeiro café da manhã, já se encontra deprimido e cansado. Mas ele agora sabe. Diniz deseja real e intimamente a felicidade, liberdade e amor correspondidos.

Mas perderia, crê ele, o valor e dom da sua arte.

Na sua mente isto passou-se. Seguiu-se vazio. Cãibra mental.

O sol cobriu-se por uma pequena nuvem passageira, deixando um frio abrupto na pele que até ali iluminava.

-“Nuvens no me caminho? Apanho-as todas, um dia faço algodão doce para o Meu Coração…” – disse baixinho, sorrindo amargamente, sentindo-se estúpido, imbecil.

Limpando da barba o resto das migalhas do pequeno-almoço, deixa-se cair no sofá, em menos de um minuto está a dormir, enquanto uma lágrima do olho esquerdo escorria para o forro de pano deixando uma pequena marca que ninguém nunca veria. Sabemo-lo nós pela minha condição omnisciente e meta-linguaruda e é apenas um pormenor sórdido que achei por gosto indicar, sem quaisquer consequências.

Haviam decorrido anos intermináveis, sentia agora Diniz, entre a adolescência e a agora sua provecta e cansada idade de vinte e cinco anos, que lhe concediam já a licença para afirmar categoricamente e com propriedade vários assuntos, a maioria dos quais de coração, mas não de cardiologia. Ignora porém, muito mais do que gosta de admitir.

Sem saber que a sua odisseia ainda nem a meio vai, sonha agora com uma mulher sem rosto e um sorriso do mais belo que já viu, doce, alegre e calorosa, carinhosa e companheira, um corpo fantástico e guloso sem forma, correndo ao seu lado por dias solarengos em campos, florestas e praias.

Quando acordar vai odiar-se por isso. É um sonho quase palpável; o desespero tomará conta daquela mente sensível quando os pormenores se escorrerem da memória como a água entre os dedos.

Babava agora a camisa do pijama.

Escrito assim, fica bonito. 

 

Clopin da Maia

31/08/2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Darwin e os Pássaros

 


Há coisa mais cliché que os passarinhos a chilrear pela manhã aos primeiros raios de Sol... 

Darwin had a point, But not so much

Pirosos.


Homero de Vaz Pessoa

26/09/2018


sábado, 29 de agosto de 2020

Lobotomias

 Lobotomia a cada dia, não sabe o bem que lhe fazia:

Se a uns confere alegria,

A outros sabedoria,

Ou mesmo sagrado silêncio,

Língua vazia, sem fel, magia,

Dispensa a torcida na confraria,

E a soberba que enoja e arrepia!


Assim, babando com bonomia,

Magnânima vontade de bons dias,

Se ama parca existência,

Fogos-de-Artifício e bonitas artes,

Passeios, belas paisagens, o Sol - o Mundo!


Ignora no entanto

Humores, egos e demais génios,

Benefícios e tricas reles,

Ridículas existências,

Idiotas e imbecis,

Ignaros e Fanfarrões,

Só importam pratos e colchões,

As fraldas e as comichões!


Ahh.. assim deve ser..

Felicidade!

Isso é que era.


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

13/01/2018

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

As Meninas que Passeiam na Praia

 

Uma esplanada de café

Radiante, Vila Costa

Sol escaldante de Verão

Espero pela escassa brisa

Entre o café e Beirão

 

Ofuscantes corpos suados

Morenos e sedutores são,

Passeiam livres, nus sem pudor,

Penso logo, tentação!

 

Destes há para todos os gostos

Queimados por Deus Sol, nosso Senhor!

Desfilam numa provocante marcha

Impossível disfarçar o torpor!

 

Corpos belos e cheirosos,

Quiçá a água do mar

Invocam primitivo instinto

Difícil de controlar

 

Iluminado o caminho

Belo mar atribulado

Em fio dental e biquíni

Como não olhar entusiasmado?

 

 Camilo Alberto Reis

30/06/2008