quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte III

 

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.

O preço pela sua identidade era assim já marcado de chagas que com dificuldade cicatrizariam, mas a consciência da sua natureza superior à da maioria dos Homens, sempre o levaram a confiar que do jogo de superação entre ID, Ego e Super-Ego, ao qual assistiria indiferente qual mero espectador, para recolher as vitórias, despojos de uma qualquer batalha. Algo de expiador havia na mágoa, talvez um equilíbrio kármico a ser reposto quando cumprisse a sua missão.

Sorria por isso, enquanto pensava mais uma vez, amargamente, que era um perigoso estalinista para a direita, um fascista execrável para a esquerda – talvez fosse essa a verdadeira natureza de um hipster do século XXI. Ainda que pudesse por vezes ter sido um pouco cruel naquele amesquinhar dos familiares, sempre se considerara um “bom rebelde” a quem a própria família haveria de reconhecer os méritos e se orgulhar de ser ele um dos seus; até porque até àquele momento, sempre lhe constrangera e atormentara o peso daquele passado, enquanto em segredo escondia até dos seus recriminatórios pensamentos, algum orgulho pela sua distinta estirpe. Era um pecado que tinha dificuldade em esconder e do qual se tentava libertar, até porque também por ele, precisava de provar ao mundo que era muito mais do que aquilo que nasceu.  

Estava agora deitado de costas na areia, na zona de rebentação das ondas mais baixas. Procurava que os pensamentos, mesmo os soltos e desconexos, se juntassem num puzzle que lhe sugerisse algum significado latente.

Talvez por tudo isto, a rejeição dos autoritarismos e das pulsões monárquicas familiares, chocavam com a sua busca pela liberdade e autodeterminação, tornando-o uma fonte de contradições internas do que o seu sentido de lógica acredita ter, e por isso, tenta sempre colmatar; é hoje uma das personagens mais contraditórias que existe no panorama político-partidário, social, cultural e económico português.   

Era este personagem que, engolindo agora alguns pirulitos, surpreendido por uma onda maior da maré que subia, estava convencido do seu perfeito controlo sobre todos os elementos que regem a sua vida, e que em breve, estava apostado nisso, mudaria o curso da história e o futuro de um país, de uma civilização.  


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