- Olha, esse coração aí, no chão,
Sentado e esquecido, sujo, puído;
- Espero que não nos tenha ouvido!
- Feliz foi um dia: jaz agora, no alcatrão.
- Sim, esse mesmo aí:
Invisível sentado, perdido;
- Sim sim, previsível Derrotado,
Amargurado, esquecido.
- Já uma vez existiu, vigoroso, sorrindo
E forte, pulsante, marcante, charmoso:
Apaixonado apaixonante e lindo!
- Ainda hoje apaixonaria, belo,
Caprichoso, sonhador e bondoso
Amante dedicado e orgulhoso
“-Sim, este coração aqui, enegrecido,
Amarrotado, pesado, e à vista – agastado!
Chaga viva amolgada, inflamada, cativa
Certamente, mas desconfio, esfomeada”
Almas mecânicas compadecidas,
Abrandam pouco, intrigando,
Uma menos absorvida, arrisca, embevecida:
“- Que vos estais apoquentando?”
O por hoje esmagado, sente e diz:
“-Nada mais ao mundo, Excelência,
Tenho por dar “
“-Tudo há para me faltar
Seja maldita a minha existência,
Tão pior por hoje acordar sem par!”
- Sim, mesmo aquele ali:
O coração amarrotado, perdido
Pobre pálido, vencido
Amargurado, pouco acarido
- Se confunde ele agora
Com os sulcos do chão
Pesada pedra escura dura, a quem,
Lhe é negada, Condição
- “Descurado agora está
Pois de muito se carece
Mesmo de leis e preces.”
Brotam lágrimas e rubras fendas,
E pragas, várias, total abjuração
“-Triste ver, estropiada obstinação.”
“-Regressemos, no entanto, e já,
Ao destino, que deixámos folgar,
Por pouco, é certo, que o ócio
Por drama alheio, nunca mais há
Do que convém: pouca saúde dá,
E é de outros, negócio; mais: nossos
Não são, os antanhos saudosos fervores,
Carências, maus amores, pesarosos”
- Artistas pindéricos, pirosos!
Felizmente, com a vida que levam
Não chegam à reforma para ser idosos!
- Estas gentes procuram atenção
Toda a que tinha, dei-lha toda
Inadvertidamente, de supetão.
(guarda a chave do carro no bolso e come o seu pastel
de nata)
Diniz Oliveira de Campos
01/09/2020
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