quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Entre Braçadas - Parte II

Caminhava agora, com os pés na areia molhada, pontualmente salpicados pelas ondas.

O mundo iria mudar sob sua égide. Sabia que tinha de o fazer. Indubitável e inevitavelmente acabaria por o fazer.

O que o preocupava na verdade era as concessões que teria de fazer ao Sistema. Teria de sair daquela bolha e abraçar a comunicação de massas, falar para o povo, que estaria certamente sedento de informação e sabedoria, de alguém que pudessem admirar e que pudessem seguir – Ah! Como abominava os inglesismos abjectos, a epilepsia da comunicação e da imagem, a economia do tempo e da palavra! Era intolerável para si toda aquela conspurcação da sua amada língua materna, que sorrateiramente e através das gerações mais novas e despreparadas, que estava certo que incauta e inadvertidamente, contaminavam de anglos e francos vocábulos a fonia de Camões, agora já automaticamente como se de nativos termos se tratassem. Não havia volta, teria de vender a alma e prostituir o seu rosto, oferecer as suas palavras ao vento no caminho que escolhera de apelar às consciências que hoje eram órfãs da verdade.   

Olhou para trás. Mais da metade do caminho que fizera fora já apagado pelas ondas. Pensou ironicamente se seria aquela um bom exemplo do que a história lhe reservaria – Seria, à semelhança de tantos outros um nome de rodapé ou uma versão romanceada de si mesmo para quem o viesse a estudar? Quem o iria recordar? Historiadores certamente, mas e o povo, as pessoas, que tão importantes são para a construção de uma personagem no consciente colectivo…?

Pensou nas pessoas comuns.

Era já humilhante ter de se rebaixar a falar directamente para o povo iletrado, onde o analfabetismo funcional era pré-requisito para poder ingressar em qualquer mercado de trabalho. Teria de rebater ponto a ponto o discurso e propaganda dessa elite cultural e intelectual de esquerda, que monopolizavam toda a imprensa.

Deixou que o mar refrescasse os tornozelos e as barrigas das pernas. Baixou-se e apanhou um caço de água com as mãos, com que molhou a cara. Respirava fundo enquanto pensava em opiniões públicas e publicadas.  

Sabia que com as suas posições deveria ser catalogado de conservador reaccionário de direita, algo que rejeitava desde a juventude – não fora precisamente essa a génese da sua identidade, quando se rebelara com os trejeitos mui finíssimos e nobres da sua família patética, da qual muitos elementos guardavam ainda um orgulho bacoco por um passado de títulos nobiliárquicos e pertenças vastíssimas de terra e bens? Estava certo que ainda hoje tinha razão a demarcar-se ainda novo daquelas infindáveis reminiscências familiares sobre a cor azul do sangue e antepassados muito distantes (séculos!) e nobres! Não impusera um afastamento de valores e princípios quase que blasfemo em relação ao seu clã de origem? Via-se desde jovem como uma voz independente e livre, que denuncia o monopólio do sistema por grupos minoritários e permanentemente beneficiados, que desprezam a meritocracia e a capacidade individual de um ser humano de reinventar e superar.

Pousava agora a mochila e começava a despir a blusa de linho – a água estava demasiado boa para não mergulhar. Sempre sentira um enorme prazer e libertação em contacto com a areia e a água do mar. Nada era mais simples e verdadeiro que aquilo. Sorriu desdenhosamente – Era óbvio que qualquer geólogo, meteorologista ou especialista em oceanos e vida marinha discordaria desta afirmação, - como era chato e impossível tentar libertar a mente, a constatação permanente do quão pouco sabia sobre cada coisa tinha o dom de o irritar. Tão pouco saber apesar de tanto ler, tanto estudar, fazia com que se sentisse limitado, falível e mortal – um humano. Ironizou consigo mais uma vez – Se há tanto imbecil que percebe claramente muito menos do que eu dos assuntos de que fala e com os quais tem a presunção de produzir conteúdos que desinformam mais do que informam, certamente que o seu trabalho seria menos condenável, mais útil e preciso do que os restantes. 

Aproximou-se do mar, onde rebentavam já as ondas mais pequenas daquela zona da costa.

Retomou a linha de pensamento anterior - Sim, o sucesso de cada indivíduo dependia exclusivamente de si, não lhe fazia por isso sentido que os seus familiares se comportassem como se fossem membros da família real, quando o maior feito de todos eles teria sido o desbaratar do património da família ao longo de gerações, sem feitos, sem mérito, sem contribuição alguma para o país, para as pessoas ou para o crescimento intelectual e humano. Havia apenas uma infinidade de páginas em branco na história da família, uma ausência escandalosa da sua participação na história como qualquer livro poderia assertar; “Aristocracia falida e néscia, condenada ao olvido” - As imperdoáveis palavras que com tanto rancor atirara aos progenitores no início da sua idade homem, mas que até hoje lhe ecoavam na memória, tão reais como quando foram proferidas, mas dolorosas muito mais agora e a cada dia, definitivamente votado ao congraçamento possível com florestas nuas, de ciprestes.

Mergulhou uma, duas, cinco vezes. Aproximou-se das ondas mais altas, pronto a deixar-se levar, fazer golfinhos como em criança - sempre o divertira e acalmara.



Clopin da Maia

07/08/2020

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