terça-feira, 3 de novembro de 2020

Desgostos

 Era Outubro de um ano muito comprido, ou assim parecia, e uma vez mais Diniz encontrava-se só.

O desgosto fazia-se sentir nas entranhas, como se um rato o roesse por dentro.

A humilhação rivalizava com o sentimento de perda. Um vazio apático e cinzento enchia-lhe o espírito e o coração só por inércia se mantinha pulsante. Também não conseguia chorar. Se era pela mesma inércia, ou se fruto do mesmo bloqueio que tinha vindo recentemente a sentir, que o impedia de expressar outro sentimento que não raiva em momentos como este, muito embora soubesse que se conseguisse abrir essa comporta, à torrente se seguiria um alívio balsâmico. A natureza deste bloqueio era mistério, pois certa humidade lhe acompanhava as órbitras ao mais ínfimo vestígio de emoções um pouco mais complexas.

A sua paixão de anos. Parecia finalmente tão, mas tão perto…. Tão certo.  Não compreendia – teria de haver certamente um qualquer gosto sádico do sexo feminino, uma conspiração em relação à sua pessoa – não havia outra explicação para tantos desgostos e desilusões. Cada vez mais acreditava andar a ter sido utilizado por todas as mulheres com quem privara ao longo dos anos, como um penso de nicotina, algo descartável, que supre temporariamente uma carência, imediatamente esquecido e trocado por outro.  Uma espécie de pousio para mulheres carentes e necessitadas. Apesar de no início da sua idade adulta nunca se ter preocupado muito com isso, entregando-se sempre livremente aos prazeres do convívio feminino, o passar dos anos e muitos desgostos, resgataram ao seu espírito todos os medos e inseguranças que a pós-adolescência, a custo, recalcara e se esforçara por esconder. Agora, com aquele que reconhecia ser o maior golpe emocional que já recebera, sentia-se no interior de um túnel muito escuro e frio, à margem do mundo quente e solarengo, assim como das pessoas cinzentas e sem rosto por quem passava: aquele seu grande amor, aquele vigoroso e imponente dos que queimam os olhos à primeira vista e fazem o coração crescer além do espaço que lhe é destinado, que torna possível a existência de uma infinidade de borboletas no estômago e faz levitar – sim… aquele grande, grande amor, dos quais são feitas as grandes tragédias - e também as comédias românticas na verdade, - após um reencontro ardente, o final feliz de qualquer novela, o auge da fantasia romântica e tremendista daquela alma incurável, esfumou-se de forma abrupta e fria. 

Tantos anos haviam passado desde o seu último grande amor, e agora, mesmo no momento em que se sentira de novo preparado a confiar o coração a uma nova eleita, que lho guardasse e cuidasse, havia parecido predestinação que fosse logo aquela criatura de cabelos áureos e olhos de oceano profundo, justamente a que lhe provocara taquicardias desde o primeiro momento em que a vira, havia já tantos anos.

Houve um “toca e foge” cruel, com se aquela odiosa criatura tivesse reaparecido àquele triste espectro de existência, só para lhe recordar que não era digno nem merecedor de tal presença. A chaga que nunca tivera oportunidade de abrir por ausência de acontecimento, teimava agora em não querer estancar.

E ele sentava-se ali a olhar e a chorar. A sonhar e a acordar. Mais uma terça-feira no bairro.


Clopin da Maia 

02/11/2020


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