Era Outubro de um ano muito comprido, ou assim parecia, e uma vez mais Diniz encontrava-se só.
O desgosto
fazia-se sentir nas entranhas, como se um rato o roesse por dentro.
A
humilhação rivalizava com o sentimento de perda. Um vazio apático e cinzento enchia-lhe
o espírito e o coração só por inércia se mantinha pulsante. Também não
conseguia chorar. Se era pela mesma inércia, ou se fruto do mesmo bloqueio que
tinha vindo recentemente a sentir, que o impedia de expressar outro sentimento
que não raiva em momentos como este, muito embora soubesse que se conseguisse
abrir essa comporta, à torrente se seguiria um alívio balsâmico. A natureza
deste bloqueio era mistério, pois certa humidade lhe acompanhava as órbitras ao
mais ínfimo vestígio de emoções um pouco mais complexas.
A sua
paixão de anos. Parecia finalmente tão, mas tão perto…. Tão certo. Não compreendia – teria de haver certamente
um qualquer gosto sádico do sexo feminino, uma conspiração em relação à sua
pessoa – não havia outra explicação para tantos desgostos e desilusões. Cada
vez mais acreditava andar a ter sido utilizado por todas as mulheres com quem
privara ao longo dos anos, como um penso de nicotina, algo descartável, que
supre temporariamente uma carência, imediatamente esquecido e trocado por
outro. Uma espécie de pousio para
mulheres carentes e necessitadas. Apesar de no início da sua idade adulta nunca
se ter preocupado muito com isso, entregando-se sempre livremente aos prazeres
do convívio feminino, o passar dos anos e muitos desgostos, resgataram ao seu
espírito todos os medos e inseguranças que a pós-adolescência, a custo, recalcara
e se esforçara por esconder. Agora, com aquele que reconhecia ser o maior golpe
emocional que já recebera, sentia-se no interior de um túnel muito escuro e
frio, à margem do mundo quente e solarengo, assim como das pessoas cinzentas e
sem rosto por quem passava: aquele seu grande amor, aquele vigoroso e imponente
dos que queimam os olhos à primeira vista e fazem o coração crescer além do
espaço que lhe é destinado, que torna possível a existência de uma infinidade
de borboletas no estômago e faz levitar – sim… aquele grande, grande amor, dos
quais são feitas as grandes tragédias - e também as comédias românticas na
verdade, - após um reencontro ardente, o final feliz de qualquer novela, o auge
da fantasia romântica e tremendista daquela alma incurável, esfumou-se de forma
abrupta e fria.
Tantos anos
haviam passado desde o seu último grande amor, e agora, mesmo no momento em que
se sentira de novo preparado a confiar o coração a uma nova eleita, que lho
guardasse e cuidasse, havia parecido predestinação que fosse logo aquela
criatura de cabelos áureos e olhos de oceano profundo, justamente a que lhe
provocara taquicardias desde o primeiro momento em que a vira, havia já tantos
anos.
Houve um “toca
e foge” cruel, com se aquela odiosa criatura tivesse reaparecido àquele triste
espectro de existência, só para lhe recordar que não era digno nem merecedor de
tal presença. A chaga que nunca tivera oportunidade de abrir por ausência de
acontecimento, teimava agora em não querer estancar.
E ele
sentava-se ali a olhar e a chorar. A sonhar e a acordar. Mais uma terça-feira no bairro.
Clopin da Maia
02/11/2020
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