quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Hoje Mal Sou Homem.

Frustração


Hoje mal sou Homem.

Hoje mal sou nada.


Eu tenho um amor.

Sim, eu tenho um amor.

Aliás, encontrei O Amor.

é arrogante,mas sim,

encontrei de facto, o Amor.

 

Um Amor forte,

um Amor envolvente, quente

como a cratera de um vulcão

enche-me de ar quente o coração.

Sim. Esse amor.

Forte sedento, faminto e doente

que me não permite que em mais algo pense,

de tão quente, ardente, com o qual choquei de frente.

Amor que me capturou.

 

Capturou no primeiro olhar,

no primeiro sorriso,

no primeiro toque,

 no primeiro beijo..

 

Mas hoje mal sou um Homem.

E estou à beira de perder

o meu grande Amor.

 

Um amor, não, O Amor,

que me fez e faz feliz.

Sim, eu encontrei o Amor que me faz feliz.

Um amor com quem rio e choro,

 a quem mimo e por quem grito,

beijo e aperto,

sempre certo, que longe ou perto,

a minha energia lhe é dedicada,

em cada frase, em cada pensamento,

em cada suspiro, em cada carência,

em cada palavra.. e letra..

 

Sim, toda a energia

que me percorre e liga,

é oferenda a esse amor.

Ao amor.

 

Mas hoje mal sou um Homem.

E estou à beira de perder

o meu grande Amor.

 

O Amor é Doce,

O Amor faz bem,

O Amor é companheiro.

O amor é fogoso e quente,

um carinhoso delinquente,

que me dá de presente

todo o seu Ser,

encontrando-se ao meu lado,

lutando, acreditando em mim,

sem que aparente

esse cansaço evidente,

que conspira qual serpente

e que mesmo ainda sentindo,

o faz esmorecer, ainda assim.

 

Sim eu tenho um amor- O Amor.

Que amo, sem fim, louca e apaixonadamente.

Perdida, inconscientemente,

incondicional e doentiamente.

 

Hoje mal sou um Homem.

E estou à beira de perder

o meu grande Amor.

 

Nunca assim antes amei.

e por isso sei,

último amor este para mim será,

e apenas ele tem lugar cativo no meu coração.

De que tem ele a chave, a licença e alvará,

O próprio Amor maior é  que o coração.

E se por minha infelicidade,

me for levado de arrastão,

coração, esse, irá com ele

 

Pois eu hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Coração não vive sem Amor.

E sem coração não vivo eu,

Tanto que a ideia só

me gela os ossos,

que  implodem em chamas de agonia

angústia inerte que me cravam o peito

adagas de prata,

que me esventram e contorcem as entranhas,

me entorpece os joelhos ,

gemendo como velhos,

e no final, já pútrido,

olhando em redor,

imagino réstia de pó,

desfigurado resquício de quem já ali viveu.

 

Perco a razão.

O pouco Homem ainda em mim

se faz concha oca em ruínas

que o vento e a terra ajudam a apagar e esquecer,

no fim..

 

Assim a ideia de viver sem o Amor,

me é tão dolorosa,

 

Sim eu tenho O Amor.

e por ele tenho todo o meu Amor.

Porém não basta.

E a culpa é minha.

 

O meu amor não chega,

Doente, me sinto,  impotente;

frente ao medo, fel, maldito,

traiçoeiro e assassino,

coveiro.

 

Chagas em azeite fervido,

é o que sinto uma vez lido,

agonia e arder sentido

Pelas palavras do meu Amor,

"preso dentro de si,

onde tudo lhe dói e tudo é escuro".

 

Hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Frustração.

Raiva e revolta.

Desespero, fadiga,

auto-comiseração,

cobardia,

inutilidade impotente.

Anarquia emocional,

roleta russa de sensações e humores.

 

Assim observo

 um futuro cada vez mais distante

que temo eu que seja inexistente

sem forças ou mais recursos,

que me permitam acreditar.

 

Sim, eu tenho um Amor.

E para meu desespero,

tudo isto o atinge.

Revolta, frustração.

 

Não, o meu Amor nada disto merece

faço do meu grito , meu choro,

minha prece,

pelo meu Amor.

 

Hoje mal sou um Homem.

Hoje mal sou alguém.

E o meu Amor merece um Homem,

Um futuro.

Merece esperança.

 

Mas hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

As lágrimas

que ensopam este texto

E esfarelam estas folhas,

não redimem, nem corrigem

o mal que faço ao meu Amor.

O tremor da lapiseira

não me absolve nem resolve,

a dor do meu Amor.

 

Hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Em todo este turbilhão,

vacilei,

Com o meu Amor.

Devia ter comprado luzes,

barreiras, parquímetros,

cancelas, colado cartazes,

gritar ao mundo, na rua,

bem fundo, que aquele lugar,

no meu coração é único,

está reservado e é vitalício,

do Meu Amor.

E ainda assim,

Só ao Meu Amor

mo faltaria provar.

E não o posso censurar.

 

Hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

O meu amor ralha-me.

O Meu amor grita-me.

O Meu amor chora, implora,

abraça e beija-me.

O meu Amor desespera

ao ver-me assim.

 

E eu ralho de volta ao meu amor.

E eu grito de volta.

E pior,

Grito por duas razões,

grito de discordâncias.

sagaz, picante e arguto arrufo,

feroz, fiel, frontal e duro,

como devem ser aliás,

os de todos os Amantes rubros;

Mas pior, doloroso e fatal grito

grito por concordar com o meu Amor.

 

São-me gritadas verdades,

verdades que não gosto de ouvir.

Escuto verdades que,

durante anos não quis ver.

Observo verdades que

durante anos não quis ouvir.

 

E revolto-me -

Não com o meu Amor -

comigo!

Por  tal estupidez,

tacanha e ingénuo,

lógica primária,

bonacheirão imberbe e ignorante.

 

Quando grito ao meu Amor,

Grito para mim.

Quando insulto, insulto-me a mim.

Digo ao meu amor, gritando,

aquilo que de mais desprezível e terrível,

sei que tenho em mim.

E não me orgulho.

Fico doente, parto tudo.

Apago.

Horrorizado com tão vil pecado.

Proferi insultos que me eram destinados,

ofendendo o meu Amor, estando sempre ele do meu lado.

 

E choro.

Como me converti em tão hediondo diabo?

 

O meu Amor ajudou-me a olhar o meu passado.

O meu Amor fez-me olhar para mim.

E não gostei do que vi.

Observei um espectro de mim outrora,

hipnotizado, olhando um passado,

ora focado, ora desfocado.

 

E por isso hoje mal sou um Homem.

E hoje estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Passado, assumido,

nada esquecido, ferido, saudoso

tristeza tenho,

que a falta de remorsos.

de felicidade tonta e despreocupada,

que não existiu,

descomprometido com a vida e um distante futuro

me torne tão difícil de esquecer,

de querer viver melhor o presente

para me tornar uma pessoa melhor.

 

Saudades do que nunca fui,

impedem-me hoje de Ser.

 

Sou hoje

pior pessoa que outrora.

 

Hoje mal sou um Homem.

E estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Reflectindo,

Sim.

Com medo de um futuro,

inexistente,

procuro no passado,

passado,

um conforto que nunca tive,

de memórias felizes que nunca tive.

Mentiras.

 

Procuro conforto,

no passado,

pessoas do passado,

que apenas por o aparentarem,

mantenho a ilusão de que ainda hoje o são.

 

Desperdiço o presente

em nome de um passado que mal existiu,

e cujo presente já não existe de todo.

 

Tornei-me um servente.

Um tonto, crédulo.

Ao serviço de todos os que,

dentro das minhas limitações

consigo servir.

Só durante.

Um afago no ego,

sem graça, significado

ou valor.

 

Não dei conta.

No velho hábito, por hábito,

Servi o hábito,

sem servir o meu Amor.

E o meu Amor está triste.

O meu Amor está sentido.

O meu Amor tem razão.

 

Estou a afundar-me.

E tenho arrastado o meu amor comigo.

 

O Meu amor não merece.

 

Hoje mal sou um Homem.

Hoje mal sou nada.

E hoje estou à beira

de perder o meu grande Amor.

 

Só que hoje,

nem hoje, nem nunca!

Pretendo deixar fugir o meu Amor!

 

Devo assumir, reconhecer e aceitar

Este sentimento, esta dor e remorso,

Só assim, me posso punir,

Com a esperança de poder corrigir

Um dia a pessoa que tenho sido,

Longe do que precisas, queres e mereces,

Para te poder provar então que é

Amor verdadeiro, aquele que te tenho

 

D.O.C.

03/12/2014

domingo, 15 de novembro de 2020

Sentimentos como Pipocas

 Os sentimentos são parvos como as pipocas. 

Até podem saltar. Más há sempre um(a) filho(a) da puta que os come, enquanto olha distraído(a) para um ecrã. 


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

24/07/2018

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Coração Partido é Estúpido

Ao meu amigo, primo e colega Diniz Oliveira Campos:

 

“Esse coração aí no chão, sentado, esquecido, sujo e puído, foi um dia já”,-  e o é ainda, “vigoroso, músculo activo, forte pulsante, marcante, apaixonante, apaixonado.”

Sim, esse “coração aí sentado hoje, desprezado e amarrotado, invisível instável, pálido e chato, amargurado e perdido. “

“Não vê, não fala, não quer, não mais sente.” Mentira – não mais quer sentir.

Forte demais para resistir. Tem juízo.

Procuras agora fazer desse destroço uma pedra?

O teu lirismo adolescente já começa a ir longe demais.  

Hoje acreditas que nada mais sentes que não dor. Há muito que sentes que te falta um par. Há muito, entendamos nós, restantes mortais, que como tudo, é relativo, e se nada mais há de relativo que o tempo para cada um de nós, a mesma pessoa que é tão relaxada me relação a cumprir horários, porque sempre: “-temos tempo!...”- nunca tempo há suficiente que te permita desfrutar de qualquer um nos teus amores da vez.

Ora, não posso eu em consciência deixar de te fazer notar que, ao contrário do que “o teu coração te ordena” (palavras tuas, jamais utilizaria termos tão pirosos), não só um dia não é tempo que baste para recuperar de uma assolapada paixão, como uma semana não é, de todo, imenso tempo para que te martirizes por estares privado do regaço e prazeres da companhia feminina.

 

Acredita, como bem sabes, além de ter consideravelmente mais experiência de vida que tu, tenho também a experiência do meu casamento falhado – não só não merece a pena deixares que desgostos amorosos te consumam, como especialmente tu, que amanhã já amarás para a vida outra criatura que te permita salivar sob os seus tenros contornos, é ainda mais absurdo que te deixes levar por tão exagerados prantos e angústias.

 

Tantas lágrimas que gastas, por muito que abuses das figuras de estilo, adjectivando-as de “(…) rubras fendas, enlutadas e enegrecidas por negligências, desprezo e solidão (…)” privam-te em grande parte de poderes canalizar as tuas forças para a produção da tua arte, aquilo que, em última análise, te sustenta. Não posso deixar de te fazer notar que, de forma objectiva, é uma contradição dos valores que dizes que defendes – quereres viver exclusivamente da tua arte.

 

Essa “Carência intimidante” é inoportuna, em especial se considerar que acabas por nos incomodar a todo com as tuas marés melodramáticas. Já ninguém tem paciência para te aturar, e só mais ninguém to diz porque todos os outros estão a tentar aproveitar esta época sacro-festiva para expiar os seus pecados e comprar um lugar no céu.

 

Apesar de discordar em muito da tua abordagem, recordo que até já conseguiste reconhecimento e louvores fervorosos da crítica e de alguns admiradores. Ainda que eu defenda que isso te é permitido apenas pela baixa educação do nosso país, não deixas de ter uma responsabilidade para com o eu público e, em fundamental, continuar a trabalhar e a produzir valor, até porque te recordo que todos nós assumimos um compromisso de trabalhar e cooperar no desenvolvimento da nossa actividade. Se racionalizarmos a produção dos nossos conteúdos com a lógica empresarial contemporânea, compreenderás que não é admissível nem sustentável que esta situação se mantenha por muito tempo.

 

Insisto por isso que não alimentes da tua histeria emocional, pois crê no que te digo, é do teu da psique que vem o material para o teu trabalho, não do “coração” que, não obstante eu reconhecer todo mérito do teu lirismo, estou convencido de que tens consciência de que é apenas um músculo que nada tem a ver com essas tuas tontas e bacocas emoções.

 

 Coração partido é estúpido.

Toma juízo puto.


Ps: preciso que me emprestes o microfone para a terça-feira que vem.

 

Saudações Cordiais

Homero de Vaz Pessoa

21/12/2019

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

domingo, 8 de novembro de 2020

Coração Partido

 Esse coração aí no chão

Sentado, esquecido

Sujo, puído

Foi um dia vigoroso,

Músculo activo,

Forte, pulsante

Marcante, apaixonado,

Apaixonante.

 

Sim,

Esse coração aí,

Sentado hoje,

Desprezado, invisível,

Instável, insensível,

Pálido chato,

Amarrotado, amargurado perdido.

 



 

Coração agora,

Não vê, não fala,

Não quer, não sente,

Não mais tem emoção.

Pedra agora se faz,

Por mão não ter mais

Que o agarre,

lhe dê mais préstimo.

Hoje não mais sente

Que dor…

Perdeu o seu par…

A sua gémea,

Sua forte ligação suprema

Eterna, visceral, etérea…

 

Tanta dor…

 

Brotam lágrimas rubras,

Um peito aberto, escalado,

Enlutado enegrecido

Pela negligência desprezo

Solidão.

Perda, vazio e nada…

 

Carência intimidante,

Inoportuna chaga,

Susto inconsciente, só.

Apenas.

 

Recordo hoje,

Antenhos louvores,

Saudosos fervores

Idos….

Assim como as cores…

Tudo o que resta…

São bolores…

 

Hoje, frio e só,

Feridas por sarar,

Pulsões por domar

Uma vida por agonizar…

 

D.O.C.

19/12/2019

 

sábado, 7 de novembro de 2020

Onanismos Intelectuais

 Onanismos intelectuais não, obrigado. 

Concentrem-se na força e paz interior. 

Energias fantasmas. Trampolins magnéticos pululando o éter quântico. 

Caveiras de craveira. 

Pensem nisto. 

Namastê.


H.V.P.

11/03/2019


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Testas

Imaginem.

Acreditem. 

Só com calor sabe bem comer gelados com a testa. 

Não tenho cavalos, nem sou americano, mas conheço o segredo da bomba atómica. 

Passar bem.

Escrivaninhas.


”Júan” João Bernardo, o Cavaleiro de Pau do Apocalipse

02/10/2019


terça-feira, 3 de novembro de 2020

Desgostos

 Era Outubro de um ano muito comprido, ou assim parecia, e uma vez mais Diniz encontrava-se só.

O desgosto fazia-se sentir nas entranhas, como se um rato o roesse por dentro.

A humilhação rivalizava com o sentimento de perda. Um vazio apático e cinzento enchia-lhe o espírito e o coração só por inércia se mantinha pulsante. Também não conseguia chorar. Se era pela mesma inércia, ou se fruto do mesmo bloqueio que tinha vindo recentemente a sentir, que o impedia de expressar outro sentimento que não raiva em momentos como este, muito embora soubesse que se conseguisse abrir essa comporta, à torrente se seguiria um alívio balsâmico. A natureza deste bloqueio era mistério, pois certa humidade lhe acompanhava as órbitras ao mais ínfimo vestígio de emoções um pouco mais complexas.

A sua paixão de anos. Parecia finalmente tão, mas tão perto…. Tão certo.  Não compreendia – teria de haver certamente um qualquer gosto sádico do sexo feminino, uma conspiração em relação à sua pessoa – não havia outra explicação para tantos desgostos e desilusões. Cada vez mais acreditava andar a ter sido utilizado por todas as mulheres com quem privara ao longo dos anos, como um penso de nicotina, algo descartável, que supre temporariamente uma carência, imediatamente esquecido e trocado por outro.  Uma espécie de pousio para mulheres carentes e necessitadas. Apesar de no início da sua idade adulta nunca se ter preocupado muito com isso, entregando-se sempre livremente aos prazeres do convívio feminino, o passar dos anos e muitos desgostos, resgataram ao seu espírito todos os medos e inseguranças que a pós-adolescência, a custo, recalcara e se esforçara por esconder. Agora, com aquele que reconhecia ser o maior golpe emocional que já recebera, sentia-se no interior de um túnel muito escuro e frio, à margem do mundo quente e solarengo, assim como das pessoas cinzentas e sem rosto por quem passava: aquele seu grande amor, aquele vigoroso e imponente dos que queimam os olhos à primeira vista e fazem o coração crescer além do espaço que lhe é destinado, que torna possível a existência de uma infinidade de borboletas no estômago e faz levitar – sim… aquele grande, grande amor, dos quais são feitas as grandes tragédias - e também as comédias românticas na verdade, - após um reencontro ardente, o final feliz de qualquer novela, o auge da fantasia romântica e tremendista daquela alma incurável, esfumou-se de forma abrupta e fria. 

Tantos anos haviam passado desde o seu último grande amor, e agora, mesmo no momento em que se sentira de novo preparado a confiar o coração a uma nova eleita, que lho guardasse e cuidasse, havia parecido predestinação que fosse logo aquela criatura de cabelos áureos e olhos de oceano profundo, justamente a que lhe provocara taquicardias desde o primeiro momento em que a vira, havia já tantos anos.

Houve um “toca e foge” cruel, com se aquela odiosa criatura tivesse reaparecido àquele triste espectro de existência, só para lhe recordar que não era digno nem merecedor de tal presença. A chaga que nunca tivera oportunidade de abrir por ausência de acontecimento, teimava agora em não querer estancar.

E ele sentava-se ali a olhar e a chorar. A sonhar e a acordar. Mais uma terça-feira no bairro.


Clopin da Maia 

02/11/2020


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Gritos

 Um rasgo na rua

bem alto um luar 

Não sei mais que fazer 

mas aqui não consigo ficar 


Avanço lentamente 

passo a passo

pareço recear

cada iniciativa uma incerteza

em cada investida sem destreza 


... Derrota 


Sozinho canto, grito 

bato a parede

um cerco febril 

monstro maciço,

que não cede nem  mexe

só,

implacável e fria

em mim basta para me bastar 


Sozinho canto.  E Berro!!!  


Quando em mim procuro um anjo 

as asas não consigo abrir

caio em mim

mas para quê voar tão alto 

se nem sequer se faz sentir


E ai de mim se paro agora 

de  mim que não deixa memória

vivência... inútil...

vã... 


Em mim revolta pura

A mim revolta pura 

paralisante incompetência

incompetência paralisante 


GRITO!!!! BERRO!!!!


Ao crepúsculo 

penso no que sou e não fui 

no que fui e não serei 


E a culpa de quem é

De quem a culpa,

e quem ma roubou... ? 


Inferno... 


ESTOIRO. 


e corro... 


Corro em frente

sempre em frente 

sempre assim 

não posso parar 

não posso cansar 

não posso parar 

não posso sentir 

não posso parar 

não posso parar 

NÃO POSSO PARAR!!! 


E escuro

junto ao mar

Não posso parar

não posso parar 

não posso parar

junto ao mar

não posso parar

sigo em frente

não posso parar

vou-me cansar

não posso parar 

sem pé

não posso parar 

EU VOU PARAR! 

vou voltar a sentir 

vou-me afogar

vou voltar a seguir

vou voltar a andar 

eu não posso parar 

não posso estancar

não posso pensar 

não posso sentir

não posso parar 


mas sinto...


  ... e penso... 


e não posso parar...


D.O.C.

16/12/2012


domingo, 1 de novembro de 2020

Ensaio sobre o EU

 Nas trevas de mim procuro

A essência que de mim me perco

Aquela que não excluo

Quando de mim não me convenço

 

Um futuro errante,

uma sátira passada

em mim eu sinto

inquieto

sentido escondido

o meu deserto...

só meu ...

 

Oiço o coração espaçado

Não entendo o que de mim não conheço

E aquilo que de mim conheço,

Não compreendo porque o não reconheço

 

O meu sentido

O meu eu

A mim apelo

Em mim eu espero

A mim desespero

Em mim, comigo, eu berro!  

 

Estou cansado

Estou cansado

Não quero viver

Não quero morrer

Não quero pensar

Não posso aqui estar

 

Não me consigo mexer

Não me quero mexer

Já não consigo correr,

Já não consigo saber,

Ganhar ou perder,

Eu já não sei ser!!

Já não preciso correr já nao consigo morrer...

Não quero viver

Não quero morrer

Quero sobreviver, desnascer e morrer

 

... quero gritar

Eu quero sentir

Eu quero subir

Eu quero pedir

Eu quero sentir

Eu preciso sentir

E não quero pedir

 

 

E no silêncio....

 

No silêncio das trevas ensurdecedoras

O medo pulsa, cego ao olhar de um grito surdo que não sabe ser

Que se cala em plenos pulmões

Desesperado em frente a uma esperança doentia e febril

Que me agarra  ...

 

Tanto a fazer, tanto para ganhar, para conquistar, avançar e vencer,tanto para rir, amar e perder... 

 

Será na ignomínia da morte que encontrarei o meu ser, o meu lar o meu vencer?

 

O Meu eu que nao fui e não sou, que procuro, odiando e amando

Desejando tudo aquilo que um dia poderia ser e não serei

Admiro-o, odiando-o

Quero-o, desprezando-o

Procuro a saída deste aterro inútil e maldito

Que me prende em mim

Que desprezo mas sem o qual não vivo

 

SAI! RUA! FORA! VOlTA! FICA!! VOLTA!!!

NÃO!


D.O.C.

03/03/2012