Ao meu amigo, primo e colega Diniz Oliveira Campos:
“Esse coração aí no chão, sentado, esquecido, sujo e
puído, foi um dia já”,- e o é ainda, “vigoroso,
músculo activo, forte pulsante, marcante, apaixonante, apaixonado.”
Sim, esse “coração aí sentado hoje, desprezado e amarrotado, invisível instável, pálido e chato, amargurado e perdido. “
“Não vê, não fala, não quer, não mais sente.” Mentira – não mais quer sentir.
Forte demais para resistir. Tem juízo.
Procuras agora fazer desse destroço uma pedra?
O teu lirismo adolescente já começa a ir longe demais.
Hoje acreditas que nada mais sentes que não dor. Há muito que sentes que te falta um par. Há muito, entendamos nós, restantes mortais, que como tudo, é relativo, e se nada mais há de relativo que o tempo para cada um de nós, a mesma pessoa que é tão relaxada me relação a cumprir horários, porque sempre: “-temos tempo!...”- nunca tempo há suficiente que te permita desfrutar de qualquer um nos teus amores da vez.
Ora, não posso eu em consciência deixar de te fazer notar
que, ao contrário do que “o teu coração te ordena” (palavras tuas,
jamais utilizaria termos tão pirosos), não só um dia não é tempo que baste para
recuperar de uma assolapada paixão, como uma semana não é, de todo, imenso
tempo para que te martirizes por estares privado do regaço e prazeres da
companhia feminina.
Acredita, como bem sabes, além de ter consideravelmente
mais experiência de vida que tu, tenho também a experiência do meu casamento
falhado – não só não merece a pena deixares que desgostos amorosos te consumam,
como especialmente tu, que amanhã já amarás para a vida outra criatura que te
permita salivar sob os seus tenros contornos, é ainda mais absurdo que te
deixes levar por tão exagerados prantos e angústias.
Tantas lágrimas que gastas, por muito que abuses das
figuras de estilo, adjectivando-as de “(…) rubras fendas, enlutadas e
enegrecidas por negligências, desprezo e solidão (…)” privam-te em grande
parte de poderes canalizar as tuas forças para a produção da tua arte, aquilo
que, em última análise, te sustenta. Não posso deixar de te fazer notar que, de
forma objectiva, é uma contradição dos valores que dizes que defendes –
quereres viver exclusivamente da tua arte.
Essa “Carência intimidante” é inoportuna, em especial se
considerar que acabas por nos incomodar a todo com as tuas marés melodramáticas.
Já ninguém tem paciência para te aturar, e só mais ninguém to diz porque todos
os outros estão a tentar aproveitar esta época sacro-festiva para expiar os
seus pecados e comprar um lugar no céu.
Apesar de discordar em muito da tua abordagem, recordo que
até já conseguiste reconhecimento e louvores fervorosos da crítica e de alguns
admiradores. Ainda que eu defenda que isso te é permitido apenas pela baixa
educação do nosso país, não deixas de ter uma responsabilidade para com o eu
público e, em fundamental, continuar a trabalhar e a produzir valor, até porque
te recordo que todos nós assumimos um compromisso de trabalhar e cooperar no
desenvolvimento da nossa actividade. Se racionalizarmos a produção dos nossos
conteúdos com a lógica empresarial contemporânea, compreenderás que não é
admissível nem sustentável que esta situação se mantenha por muito tempo.
Insisto por isso que não alimentes da tua histeria
emocional, pois crê no que te digo, é do teu da psique que vem o material para
o teu trabalho, não do “coração” que, não obstante eu reconhecer todo mérito do
teu lirismo, estou convencido de que tens consciência de que é apenas um músculo
que nada tem a ver com essas tuas tontas e bacocas emoções.
Coração partido é estúpido.
Toma juízo puto.
Ps: preciso que me emprestes o microfone para a
terça-feira que vem.
Saudações Cordiais
Homero de Vaz Pessoa
21/12/2019
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