Com o pincel em punho e a alma à solta,
O artista sorri, a criação o exalta.
“Hoje pinta o sol!” ele grita na bruma,
Mas a tela em branco, oh, como se esfuma!
(Mesmo fumo do tabaco, fosse espuma ou bengala!)
Cores dançam vivas numa valsa encantada,
Escondendo nas sombras a vida cansada.
Que geme imperiosa, sagrada, uma linda toada!
“Que importa?” diz ele, “a ilusão é o meu bem,
Sou maestro do riso, sou canto também!”
Sou canto e encanto, tudo isso é meu ser,
Felicidade a minha, observar sem ver,
Todos esses seres infelizes que precisam de olhos para ver
Enquanto eu, apenas fecho os olhos para viver!
Num café barulhento, um amigo a sorrir,
Observa a paleta e lhe diz a partir:
“Que belo este quadro, mas o quê que encerra?
Cadê o cotidiano na festa que erra?”
Contempla este quadro a paz ou a guerra?
Talvez um campo florido, ou pândegos na taberna!
E riem os dois, ergue um copo reluzente,
Enquanto o artista busca o gesto presente.
Maravilhar ânimos, a vida em cor,
Cada traço, um passo, um pedacinho de amor.
Amor esse que engana, mas nunca chama!
E quando está em chama, nunca engana!
Então, num segundo, ele jorra mais tinta,
Mistura na paleta a vida que se despinta.
“Olha, querido amigo, a beleza na dor,
Pois a arte é viver, e viver é amor!”
"Amor é tinta que pinta sem se ver! -
Dizia Camões ou parecido dizer!"
A simplicidade surge como o sol a brilhar,
Na tela a verdade se começa a formar.
O azul das esperanças, o verde das flores,
A vida é um quadro pintado em amores.
Mas na calada ela revela, bem mais cores!
"Ah! Se fosse fácil a vida colorir!”
Mas a paleta encontra a sombra e o porvir.
Entre risos e versos, pincéis em caminho,
Pintar é viver, num quadro sem pranto, um daninho.
(Esse danadinho!)
E no fim, meu amigo, lembre-se de amar,
Pois a arte é um jogo, e a vida é um lar.
Com humor de fidalgo, e a leveza do campo,
A pintar nosso ser, num quadro sem pranto, um encanto
Que encanta, sem males que espanta
Apenas num pranto se consegue lavar
Palavras essas, leva-as o vento,
Para para o mar, e amar.